C.L.R. James - Stálin arruina a Revolução Chinesa

Atualizado: Jan 21



Ao mesmo tempo que os stalinistas, por meio da falsificação e da repressão física estavam destruindo os propagandistas do socialismo internacional, a revolução mundial, que parecia tão remota em outubro de 1924, agitava-se e, ao mesmo tempo que a nova teoria estava sendo transformada em lei, apresentou-se à Internacional uma de suas maiores oportunidades. Temos de deixar passar como os estalinistas forçaram o Partido Comunista da Polônia a apoiar Pilsudski no golpe de estado que o colocou no poder. Purcell e Hicks, Pilsudski e Chiang Kai-Shek eram aliados de Stalin nesse período, e o maior deles era Chiang Kai-Shek.


A CHINA E O IMPERIALISMO


A China manteve-se comparativamente intocada pela civilização europeia até aproximadamente um século atrás, porém mesmo naqueles dias iniciais a Grã-Bretanha já era pequena demais para o capitalismo britânico e, entre 1839 e 1860, os britânicos bombardearam portos e massacraram o povo chinês para assegurar a continuidade do tráfico de ópio, uma das principais fontes de renda para a Índia Britânica. Além dos lucros desse comércio rentável, extorquiram milhões de libras a título de indenizações, apossaram-se de Hong Kong e de porção do território continental e abriram portos chineses ao comércio britânico pela força. Em 1842, o Tratado de Nanquim limitou a tarifa alfandegária chinesa a 5%, ad valorem, para prevenir o desenvolvimento da indústria sob a proteção de um alto muro tarifário. Essa situação foi mantida pelos britânicos com a força bruta até 1925, quando, sob a ameaça da revolução, as primeiras pequenas brechas foram prometidas. Na guerra de 1857, o governo britânico, novamente usando as baionetas, acrescentou às usuais indenizações, confiscos de terras, etc., um Inspetor-Geral Britânico de Aduanas. O escoamento permanente de prata chinesa para a compra de ópio, a ruína da indústria chinesa de manufaturas, o colapso do governo de Hong Kong sob os golpes da marinha britânica e a corrupção da classe dos funcionários chineses pelo contrabando do ópio minaram as fundações da outrora grande, mas agora ultrapassada civilização da China.

Em meados do século, uma séria rebelião irrompeu no sul, manteve o poder nas províncias sulistas por onze anos e, então, fracassou. Os britânicos em Hong Kong alinharam-se com os rebeldes, e as demais potências os seguiram. Porém, à medida que o movimento se desintegrava, as potências estrangeiras, principalmente a Grã-Bretanha, desertavam e (depois de, primeiramente, derrotar a Dinastia Manchu e colocá-la sob seu controle financeiro) forneciam apoio contra os rebeldes. Em 1870, havia outros rivais para a Grã-Bretanha em campo. Rússia e França roubaram vastos territórios, e os britânicos tomaram Burma. A China ainda era um mercado e, no período de 1851 a 1855, o déficit da China em comércio exterior superava 175 milhões de libras esterlinas. Os anos finais da década de 1880, porém, foram os anos de crise para o Capitalismo Europeu, quando a exportação de bens foi gradualmente substituída pela exportação de capital. A África, àquela altura, tinha sido dividida, mas a África não era o suficiente. O povo chinês tinha agora que fazer concessões e aceitar empréstimos para comprar ferro e aço da Europa. Não havia opção. O governo britânico, ocasionalmente, oferecia a escolha entre empréstimos britânicos ou cartuchos britânicos.

Em 1894, a disputa entrou em sua fase mais perigosa, porém inevitável. O capitalismo japonês tentou anexar uma parte da China, mas a anexação se chocou com interesses britânicos e de outros países europeus. Rússia e França intervieram e deram um ultimato aos japoneses “em defesa de seus próprios interesses.” O Japão estava fraco demais para afirmar seus direitos (a história agora é outra). Ainda assim, obteve a abertura de um porto e 34,5 milhões de libras esterlinas em indenização. Para o pagamento, bancos britânicos e de outros países europeus emprestaram à China 48 milhões de libras esterlinas. Deus falou ao presidente americano e, em 1892, os Estados Unidos apossaram-se das Ilhas Filipinas e entraram na corrida. Esse banditismo organizado colocou uma carga crescente sobre milhões de camponeses, de cuja produção saíam os impostos para pagar esses empréstimos. Já em 1856, Karl Marx, baseando-se sempre na unidade econômica do capitalismo moderno, entendera que as influências devastadoras desse incessante saque à China terminariam em revolução, destruiriam um grande mercado para o capitalismo europeu e, assim, precipitariam a revolução do proletariado na Europa. Em suas linhas essenciais, a análise é tão solida hoje como era então. Mas o apodrecimento da dinastia Manchu foi sustentado pelo apoio militar e financeiro dado a ela por governos europeus, e a burguesia nativa chinesa, em sua maioria comercial, não era capaz de prover as forças para a liberação da China. Como na Rússia, a entrada do capital, e a consequente criação de um proletariado nativo organizado e disciplinado pela produção em larga escala, proveria os meios para a destruição da dominação capitalista estrangeira na China. 

Foi esse o processo que Lênin viu com tanta clareza em 1908, a inevitável intensificação da exportação do capital e o consequente crescimento da revolução internacional. Nele baseou seus cálculos para a revolução mundial, descrita neste livro, Imperialism. Esse é o fundamento inabalável da Revolução Permanente. Por menor que pudesse ser o proletariado chinês ou indiano, como na Rússia, ele teria como aliados as centenas de milhões de camponeses, previamente levados ao limite de suas forças pelo feudalismo oriental, mas agora levados à ruína pelo fardo que a exploração capitalista depositara sobre suas costas.

A CHINA SE AGITA

A crescente burguesia chinesa, agora incrementada pela exportação de capital europeu, viu-se limitada em seus movimentos pelo reacionário governo Manchu.

A primeira revolta espontânea das massas chinesas havia sido facilmente canalizada para a revolta anti-estrangeira dos Boxers no fim do século XIX. Mas, depois daquele fracasso, a burguesia chinesa identificou seu principal inimigo na dinastia Manchu. A burguesia planejava construir uma estrada-de-ferro com capital, material e mão-de-obra chineses. O capital europeu entrou em cena e emprestou o dinheiro ao governo chinês. Um ano mais tarde, em 1911, a revolução irrompeu. Sun Yat-Sen, sonhando com a república e uma China regenerada, foi feito presidente. Mas Yuan Shi-Kai, do norte, previamente apoiador dos Manchus, porém com grandes forças a sua disposição, depôs Sun do cargo de presidente. A burguesia liberal chinesa apoiava Sun, mas temia que ele pudesse ir longe demais e, assim, mesmo antes de 1914, demonstrara sua natureza contrarrevolucionária. Sun Yat-Sen formou o Kuomintang ou Partido do Povo, mas uma vez mais o capital estrangeiro veio em socorro à reação e fez um grande empréstimo para Yuan Shi-Kai, que esmagou a revolução primeiro em 1913, novamente em 1915, morrendo prestes a restaurar a monarquia. Enquanto isso, a industrialização da China sob capital europeu e nativo cresceu de forma constante, acompanhada pelo correspondente crescimento da burguesia e do proletariado nativos e pela crescente miséria do campesinato.

A Guerra acelerou todos os processos em curso na China. O capitalismo japonês aproveitou a oportunidade para impor demandas exorbitantes à China. Sun Yat-Sen formou um governo revolucionário no sul da China, a tradicional seção revolucionária da China em revolta. Apesar de algumas manobras, seu principal inimigo agora era o capital estrangeiro, que se estabelecera firmemente com amplas concessões, principalmente em Xangai, de onde controlava a vida econômica do país e drenava seu sangue, apoiava a reação e dirigia-se a todos os chineses, ricos e pobres, com estudada insolência. Ora, a insultada burguesia chinesa estava sob o domínio do capital estrangeiro, e Sun, apesar de não ser comunista, entendera em 1923 que a reação chinesa, reforçada pelo capitalismo estrangeiro, não poderia ter êxito sem a ajuda de trabalhadores e camponeses. Naquele ano, a China estava em caos político. Cada grande província, economicamente autônomas desde tempos ancestrais, estava sob o controle de um Tchun, um líder militar feudal que concentrava em suas mãos o poder civil e militar, taxava os camponeses para a manutenção de seus exércitos privados e mantinha-se incessantemente engajado em guerras com outros Tchuns. O mais capaz e poderoso entre eles exercia algum tipo de senhorio sobre grupos subsidiários e gozava do apoio dos países capitalistas cujos interesses fossem predominantes nas regiões por eles controladas. Portanto, na Manchúria, o Japão apoiava Chang Tso-Lin, enquanto a Grã-Bretanha apoiava Wu Pei-Fu, saqueador chefe sobre muitas províncias no norte da China, e Sung Chan-Fang na China central. O governo de Sun Yat-Sen no sul da China, na tentativa de convocar uma assembleia constituinte para toda a China, era constantemente atacada por militaristas apoiados pelos capitalismos britânico e japonês. Ele apelou aos Estados Unidos por ajuda, mas os americanos estavam interessados no mercado chinês, não nas aspirações do povo chinês, e Sun voltou-se finalmente para a União Soviética. 

A Rússia destacou-se a favor da China, tendo Lênin devolvido tudo o que a Rússia tzarista roubara. Em 1923, Sun encontrou-se com Joffe, o representante russo em Xangai. A União Soviética prometeu-lhe ajuda na luta para livrar a China do imperialismo e de seu instrumento e aliado, o militarismo chinês. Sun Yat-Sen reorganizou seu partido. Declarou que o único objetivo dos antigos membros era enriquecer e alcançar postos como altos funcionários e que os trabalhadores e os camponeses eram as únicas forças revolucionárias reais. Mas não organizou, à maneira bolchevique, um partido baseado numa única classe; essa foi a causa da ruína final de todas as suas esperanças. Seu Kuomintang reorganizado ainda era uma salada-mista: alguns grandes capitalistas, a burguesia nacionalista, a pequena-burguesia, trabalhadores e camponeses. Seu programa prometia a uns a jornada de nove horas, a outros tarifas altas, a terceiros reduções de aluguéis, terra do estado para arrendatários e camponeses sem terra, direito à autodeterminação para as várias nacionalidades, democracia, tudo sob uma única palavra – socialismo. Um revolucionário determinado e sem dúvidas um grande líder, mesmo no fim da vida, foi capaz de deixar para seu partido apenas um programa que Ramsay MacDonald poderia ter rascunhado para ele, sem dificuldade, em meia-hora.

LÊNIN E A CHINA

Mas também Lênin, em 1919, devotara-se ao problema da China e aos países coloniais do Leste. No ano seguinte, apresentou teses sobre a Revolução Oriental ao Segundo Congresso da Terceira Internacional. Lênin percebeu a revolução chinesa como parte da revolução proletária internacional. Sem a continuada exploração dos povos coloniais, o capitalismo na Europa entraria em colapso. Suas propostas práticas eram, como sempre, baseadas no movimento proletário independente, na intransigência programática e organizativa e na flexibilidade com respeito à formação da Frente Unida.

Ele sabia que os trabalhadores e os camponeses sozinhos poderiam libertar a China. Mas sabia que o maior perigo à sua atividade era exatamente o tipo de governo de Frente Popular como o Kuomintang, que inevitavelmente chegaria ao fim por traição. Ele, portanto, pediu uma "guerra determinada" contra a tentativa de todos os revolucionários quasi-comunistas de encobrir o movimento de libertação nos países atrasados sob uma aparência comunista. “O propósito exclusivo” da Internacional Comunista em todos os países atrasados era educar os movimentos comunistas naqueles países, ainda que pequenos, para “a consciência de suas tarefas específicas, i.e., para as tarefas da luta contra tendências democráticas burguesas dentro de suas respectivas nacionalidades.” Seria lutando contra sua própria burguesia que trabalhadores e camponeses expulsariam os imperialistas. A Internacional Comunista estabeleceria relações temporárias e mesmo uniões com os movimentos revolucionários nestes países. Mas não deveria nunca se amalgamar com eles, “preservando sempre o caráter independente do movimento proletário, ainda que ele esteja em seu estado embrionário.”

Na China, a questão camponesa foi muito mais aguda do que havia sido na Rússia antes de 1917. Consequentemente, em toda a experiência russa, o bolchevique mais inexperiente poderia formular o segundo passo após a organização do partido proletário. “Acima de tudo, devemos nos esforçar o máximo possível.... para dar ao movimento camponês um caráter revolucionário para organizar os camponeses e todas as classes exploradas dentro dos Sovietes.” Lênin escreveu isso em 1920. Em três anos o proletariado chinês havia passado, ainda mais rapidamente do que o proletariado russo antes de 1905, ao estágio da maturidade para a revolução. Temos de rastrear esse processo em algum detalhe, pois, por mais cedo que fosse, estava claro já em 1923 não apenas que a Revolução Chinesa estava em marcha, mas também era óbvio que a teoria da revolução permanente e os princípios organizativos de Lênin poderiam levá-la ao sucesso.

O PROLETARIADO CHINÊS AMADURECE

A crise do pós-guerra e a retomada da indústria no Ocidente atingiram a indústria chinesa severamente. Houve pequenas greves em 1912 e o início de um movimento trabalhista e socialista antes da guerra; uma tentativa tinha sido feita de formar um sindicato em Hong Kong em 1915. Mas os trabalhadores chineses que serviram na guerra trouxeram de volta consigo a experiência da organização trabalhista. Em setembro de 1919, a Associação dos Trabalhadores Chineses Retornados foi organizada em Xangai para lutar por melhores salários, direito a manter reuniões, direito a fazer discursos em público pela promoção do bem-estar dos trabalhadores. Quanto mais atrasado o país, mais próxima a relação entre economia e política. 

Depois da guerra, os japoneses tentaram reter Xantungue e, em maio de 1919, um grupo de dezenas de estudantes atacou as residências de ministros pró-japoneses em Pequim e foi preso. Quando as notícias alcançaram Xangai, líderes trabalhistas declararam uma greve que se espalhou rapidamente, inclusive para os serviços públicos. Em poucos dias o governo de Pequim foi compelido a remover os ministros e libertar os agitadores. Em 1920, o Sindicato Ultramarino surgiu em Cantão. Centenas de publicações pré-guerra sobre sindicalismo, socialismo, anarquismo e todas as fases do movimento trabalhista estavam sendo impressas e distribuídas. Em 1º de maio de 1920, em Pequim, trabalhadores chineses celebraram o dia dos trabalhadores. Em 12 de janeiro de 1922, o Sindicato dos Marinheiros Chineses de Hong Kong apresentou sua terceira petição por aumento salarial e exigiu uma resposta dentro de 24 horas. No dia seguinte, 1,5 mil homens entraram em greve. Em 1º de fevereiro, o governador britânico de Hong Kong declarou o Sindicato dos Marinheiros Chineses uma assembleia ilegal. A resposta foi uma greve de 50 mil pessoas em solidariedade, uma greve geral simbólica, representando cada classe profissional da ilha. A greve durou quase três meses, até que os marinheiros ganharam aumento salarial de 20% a 30%. O jovem Partido Comunista da China organizou em Cantão o primeiro Congresso Chinês dos Sindicatos, com 170 delegados. Os Tchuns chineses medievais e o capitalismo europeu pós-guerra identificaram um inimigo comum. No outono de 1922, a polícia britânica atirou contra trabalhadores chineses e matou diversos deles. Em fevereiro de 1923, Wu Pei-Fu, o Tchun britânico, baniu uma conferência de ferroviários. No dia 6, ocorreu uma consulta entre os cônsules estrangeiros, representantes militares de Wu Pei-Fu e os diretores da estrada-de-ferro Pequim-Hankow. No dia seguinte, em grandes estações, tropas abriram fogo sobre multidões de ferroviários. Apenas em Hankow foram 60 mortes. O resultado foi uma greve de 20 mil ferroviários. Os trabalhadores estavam prontos para resistir, mas parlamentares em Pequim pressionaram por uma investigação, resoluções apaziguadoras foram aprovadas, o gume do ataque dos trabalhadores foi cegado e a greve foi cancelada. Imediatamente a repressão começou; prisões, execuções, fechamento de jornais de trabalhadores, a condução do movimento sindical à ilegalidade. Como os trabalhadores russos, os trabalhadores chineses estavam conhecendo a intima conexão entre economia e política num país com economia atrasada ou desorganizada.

Por essa época, na primavera de 1923, Lênin, escrevendo seu último artigo, falou com suprema confiança sobre a revolução a caminho no Oriente. A China, ele sabia, liberaria a Índia. Pois, em adição às insolúveis contradições de sua economia interna, a Revolução Russa dera a esses milhões um exemplo concreto, mais potente que cem anos de propaganda. Depois daquela primavera, no entanto, Lênin nunca voltou a trabalhar e, imediatamente, no outono de 1913, Stalin, Zinoviev e Kamenev, em Moscou, revelaram uma vez mais sua falta de princípios e seu arraigado oportunismo ao enviar o Partido Comunista Chinês para o Kuomintang – o primeiro e mais criminoso erro. Trotsky, como era frequente naqueles dias de luta solitária em defesa das ideias de Lênin, votou contra. Estivesse Lênin ainda na cadeira de presidente, esse fato nunca teria ocorrido. É desse modo que os homens fazem história. Naquele outuno, Borodin e outros assessores foram para Cantão e abriram uma escola militar em Whampoa para treinar e organizar o exército do Kuomintang. Para o observador burguês comum, aquela colaboração compensou para Stalin mesmo a subordinação temporária do movimento comunista. É aqui que o abismo entre menchevismo e bolchevismo se abre de uma vez. Sempre que confrontado com uma escolha dessa natureza, Lênin escolheu o caminho proletário. Sob certas circunstâncias, ele chegou a defender a subordinação temporária de uma organização revolucionária, não grande o bastante para ser um partido, a uma organização centrista; para uma organização social-democrata ou, pior ainda, burguesa, nunca. O esboço que fizemos do proletariado chinês entre 1920 e 1923 mostra ao olho treinado que o movimento estava maduro. Stalin, um menchevique orgânico e profundamente ignorante em negócios estrangeiros, bem como em marxismo, escolheu instintivamente o outro caminho, e Zinoviev e Kamenev o seguiram. A prova reside não em argumentos, mas na história.  

Em janeiro de 1924, o Kuomintang reconstituído realizou seu primeiro encontro em Cantão. Sun Yat-Sen concordou em admitir os comunistas em suas fileiras. Mas eles entraram não como partido, apenas como indivíduos, e tiveram de jurar seguir as regras do Kuomintang. A única justificativa concebível para esse passo seria considerá-lo uma manobra altamente perigosa. Os comunistas chineses poderiam, possivelmente, sob uma liderança forte e flexível, ter trabalhado sob a cobertura do Kuomintang por certo período de tempo e, então, tendo espalhado sua influência, sair demonstrativamente por alguma questão politica compreensível para as massas e retomar sua independência organizacional e programática. Poderiam fazer um acordo temporário por algum objetivo específico mesmo com a burguesia liberal, protegendo tenazmente sua independência. Ninguém, em 1923, poderia prever que sob as ordens de Stalin eles ficariam desesperadamente agarrados ao Kuomintang por quatro anos, até serem arrancados pelas espadas dos soldados de Chiang Kai-Shek.

Por ora, entretanto, os comunistas, aproveitando sua nova posição, começaram a ajudar energicamente o proletariado em sua tarefa de se organizar.

A REVOLUÇÃO COMEÇA

No início de 1925, Feng Yu-Hsiang, um líder nacionalista, derrotou o pró-britânico Wu Pei-Fu, expulsou-o de Pequim e proclamou seu exército como exército de libertação nacional. O movimento nacionalista acordou. Em Xangai, alguns delegados dos trabalhadores, eleitos para negociar com a gerência em uma disputa, foram demitidos. Os demais trabalhadores protestaram, e a polícia anglo-indiana, sendo convocada, atirou neles, deixando cinco gravemente feridos. Os trabalhadores de Xangai se levantaram contra essa brutalidade. Eles não sabiam disso na época, mas estavam começando a Revolução Chinesa. É assim que frequentemente chegam as revoluções, como um ladrão no meio da noite, e aqueles que se prepararam para ela e estão esperando por ela não a veem, e frequentemente somente percebem que sua chance chegou quando ela já se foi. O movimento de protesto se alimentava não apenas da arrogância e da rapacidade imediatas do estrangeiro. Era toda a história da China que estava prestes a se expressar através desse canal. Os trabalhadores camponeses chineses tinham chegado a um dos pontos de ruptura de sua história. Dentro e fora das concessões estrangeiras, os trabalhadores chineses, homens, mulheres e crianças, sofriam algumas das mais desumanas condições de trabalho existentes em qualquer parte do globo. Jornada de 12 horas, sete dias por semana, sem intervalo para refeições; sem instalações sanitárias nas fábricas mais antigas, estrangeiras e nacionais; supervisores armados com rifles carregados para manter a disciplina; e tudo isso por alguns centavos diários. A liberação nacional repousava sobre o sólido fundamento de milhões de trabalhadores que procuravam escapar de condições intoleráveis.

O que começou como uma pequena disputa sobre salários e um protesto contra uma injustiça administrativa tornou-se, do dia para a noite, uma arma política para a libertação da China. Os quatro meses e meio entre o 1º de maio e meados de setembro mostraram com precisão de um relógio as forças de classe que disputariam o domínio na revolução que se aproximava. “Abaixo os imperialistas”, era a palavra de ordem do dia. O governo chinês em Xangai acreditou estar lidando com um tumulto e respondeu às manifestações e reuniões matando e ferindo dezenas de pessoas. Por necessidade, os aliados da reação chinesa, o imperialismo estrangeiro, apressaram-se em ajudar a repressão. Em 4 de junho, os aliados imperialistas, cujas canhoneiras estão sempre nos portos chineses para proteger propriedades, direitos e interesses, desembarcaram um pequeno destacamento e ocuparam a universidade e outros prédios na cidade. O proletariado de Xangai respondeu com a greve geral. Aproximadamente 250 mil trabalhadores saíram às ruas e paralisaram a cidade. À medida que a força massiva do proletariado de Xangai se mostrava, arrastava consigo (exatamente como na França em junho de 1936) os estudantes pequeno-burgueses, os artesãos e os pequenos comerciantes e, nas condições especiais da China como um país lutando por independência nacional, até mesmo parte daquela raça traiçoeira, a burguesia liberal chinesa. Um comitê especial foi formado, o Comitê do Trabalho, Educação e Comércio, o qual, juntamente com delegados dos sindicatos, reunia representantes das associações estudantis, dos pequenos comerciantes e mesmo alguns da burguesia. Mas os sindicatos predominavam e, muito mais claramente do que na Rússia, desde os momentos seminais o proletariado chinês liderava a nação. Todas as classes pareciam apoiar a greve.

Em um país industrializado, porém, uma revolução nunca é feita por todas as classes e, à medida que a greve se desenvolvia, a necessidade do princípio que Lênin manteve por toda a vida, de que as organizações e o partido proletários devem manter sua independência, emergiu com clareza alarmante. Depois de um mês, a burguesia chinesa, que nunca fora muito ardente, retirou o apoio à greve. Durante julho e agosto, a pequena burguesia, a intelligentsia, os estudantes, os vacilantes das diversas posições intermediárias que ocupam na sociedade, começaram a fraquejar: nada além do imediato sucesso e da contínua ação vigorosa pode jamais mantê-los no movimento proletário. Apoio do proletariado internacional teria ajudado, mas apenas a Terceira Internacional agitava, coletava dinheiro, fazia doações. A Segunda Internacional, aqueles pregadores eternos da autodeterminação, nada fizeram. A Federação Internacional dos Sindicatos comportou-se da mesma maneira. O Conselho-Geral Britânico, nesse período em parceria com os russos no Comitê Anglo-Russo, não se dignou sequer a responder aos telegramas de apelo dos sindicatos chineses. Percebendo suas limitações, as lideranças de Xangai voltaram em tempo hábil à defensiva. Algumas de suas mais urgentes demandas econômicas foram satisfeitas, a greve foi encerrada e os trabalhadores de Xangai retiraram-se de forma ordeira, com uma experiência vívida, vital para ajudá-los no futuro.

Mas a China estava tão madura que a greve de Xangai funcionou como um detonador. Houve mais de uma centena de greves em solidariedade em diversas cidades e de uma delas desenvolveu-se a greve de Hong Kong e Cantão, demonstrando o poder de luta e a persistência do proletariado da maneira que constantemente surpreende mesmo o mais sanguíneo dos revolucionários.


A GREVE DE CANTÃO


Em 23 de junho, um protesto contra a chacina de Xangai aconteceu em Cantão. A polícia britânica da concessão anglo-francesa atirou nos manifestantes, matando e ferindo dezenas de pessoas. Como em Xangai, o proletariado respondeu com uma greve geral e seus camaradas em Hong Kong aderiram. A burguesia chinesa em Cantão reunia-se com os grevistas e os apoiava, devido à longa tradição revolucionária em Cantão e ao fato muito mais importante de que a greve foi acompanhada de um boicote aos produtos britânicos. O dinheiro fluía de todas as comunidades chinesas nas Ilhas Filipinas, Índias Orientais e Estados Unidos. Os britânicos tentaram impedir a entrada de dinheiro chinês em Cantão, mas fracassaram; em Hong Kong, usaram todas as forças de repressão para quebrar a greve. Os trabalhadores de Hong Kong eram inabaláveis. Aos milhares, eles começaram a sair de Hong Kong para Cantão. As estimativas variam, mas um escritor chinês afirma que, do começo ao fim, saíram da ilha para Cantão cerca de cem mil chineses. Lá, um comitê de greve foi formado. Os grevistas organizaram reuniões de propaganda, grupos de estudo e palestras, elaboraram regulamentos para os trabalhadores e os submeteram ao governo do Kuomintang em Cantão, confiscaram e armazenaram bens contrabandeados que comerciantes britânicos tentavam introduzir ilegalmente, capturaram, julgaram e aprisionaram fura-greves, organizaram piquetes em toda a fronteira com a província de Kwangsi para impedir a entrada de navios e bens britânicos de Hong Kong. Formaram uma Guarda dos Trabalhadores, que liderou os piquetes, combateu os contrabandistas e lutou com o governo do Kuomintang contra os Tchuns contrarrevolucionários. A greve arruinou o comércio britânico com a China. Entre agosto e dezembro de 1924, entraram mensalmente em Cantão entre 160 e 240 navios. Para o período correspondente em 1925, o número ficou entre 27 e 2.

O capitalismo britânico perdeu meio milhão de libras por dia. Em 1926, o Império Britânico perdera metade de seu comércio com a China e três quartos com Hong Kong. Após 15 meses, os britânicos começaram a desistir e procuraram aplacar os trabalhadores, lidando com os britânicos recalcitrantes de forma bastante ríspida. Nenhum governo pode continuar lutando contra grevistas que sequer permanecerão para ser aprisionados ou baleados. Depois de um ano, a greve continuava tão poderosa como nunca, o Partido Comunista chinês desempenhava papel protagonista e o espírito dos trabalhadores em toda a China elevou-se constantemente. As filiações aos sindicatos, que em maio de 1924 eram 220 mil, alcançaram 540 mil em maio de 1925 e, em maio de 1926, ultrapassaram um milhão de filiados. Apenas em Xangai, durante a Greve de 1925, chegaram a 280 mil. E esse crescimento das organizações de trabalhadores industriais, rápida e sem precedente, expressava-se em muitas greves eminentemente políticas, o que significa que os trabalhadores estavam tentando resolver suas dificuldades industriais pela revolução social.

O Partido Comunista saltou de 800 integrantes em 1925 para 30 mil em janeiro de 1926 e a esse poderoso movimento proletário poderia ser acrescida a avassaladora força revolucionária do faminto campesinato chinês. Em Kwangtung, uma típica província do sul, 74% da população possuía 19% das terras. Em Wiush, na China Central, 68,9% do campesinato pobre possuía 14,2% da terra. Em Paoting, no norte, 65,2% possuía 25,9% da terra. Numa estimativa aproximada, 65% da população chinesa eram guiados pelo mais consistente e poderoso impulso revolucionário de todos os períodos históricos – a fome de camponeses famintos por terra.


A REVOLUÇÃO PERMANENTE NA CHINA


A tarefa fundamental do Partido Comunista era, basicamente, a tarefa do Partido Bolchevique na Rússia – conectar o movimento proletário ao camponês, organizando os camponeses em sovietes para o confisco da terra. De nenhum outro modo que não sobre a base da revolução proletária e camponesa a China poderia, então ou agora, conquistar a independência nacional. Sun Yat-Sen aprendera aquilo por meio de uma dura experiência, ainda que tenha evitado chegar às conclusões completas. Ele esperava, de algum modo, levar as massas revolucionarias à luta liderada pela burguesia nacionalista. Isso é impossível. Desde as grandes greves, quando estava claro o desafio do proletariado chinês à burguesia, era inevitável que na primeira oportunidade a burguesia chinesa, junto com os imperialistas e os militaristas, esmagaria a revolução.

Quanto mais ao leste a burguesia, mais cruel e traiçoeira. A poderosa burguesia francesa em 1789 aliara-se à contrarrevolução; bem menos provável seria uma aliança da burguesia chinesa, muito mais fraca que a russa, com um proletariado que exibira sua força. Esse era o prognóstico teórico do partido bolchevique, amplamente confirmado pelo curso da Revolução Russa. Depois de 1917, a principal linha estratégica da Revolução Chinesa somente poderia ser a que segue. A Revolução Chinesa começaria como uma revolução democrático-burguesa, mas apenas como uma palavra de ordem imediata. O Partido Comunista da China não apresentaria objeção a essa palavra de ordem, apesar de estar consciente de que para um país atrasado com um proletariado avançado (veremos isso na Espanha) o regime democrático-burguês é impossível. A revolução triunfaria como a ditadura do proletariado, ou nada feito. O Partido Comunista já demonstrara saber como conectar demandas políticas e industriais. Ele tinha que se esforçar para popularizar as ideias de sovietes entre o campesinato em uma simples palavra de ordem – terra para os camponeses – e, como a parte que instava o confisco das terras, teria em última instância o apoio firme do campesinato para suas demandas políticas. Preservando sua própria independência, o Partido Comunista levantaria corajosamente a palavra de ordem de independência nacional baseada nas demandas revolucionárias do proletariado e do campesinato. Se o movimento se desenvolvesse (não poderia haver dúvidas sobre isso depois da greve de Hong Kong; no Hupeh, em 1926, os camponeses já estavam confiscando a terra), a máscara anti-imperialista da burguesia chinesa cairia e os pequeno-burgueses, comerciantes, estudantes e parte dos intelectuais chineses seriam tragados no despertar do movimento proletário e seguiriam o proletariado como líder da revolução nacional. Um Congresso de Sovietes apontaria um governo revolucionário provisório e convocaria uma assembleia constituinte, organizando o direito de voto para assegurar a predominância dos pobres. Nessa assembleia, o proletariado chinês, organizado no Partido Comunista e nos sindicatos, ocuparia uma posição dominante. De acordo com a força do movimento e os perigos da revolução, a ditadura do proletariado poderia ser estabelecida imediatamente. Mas ou a burguesia estabeleceria sua ditadura ou, ao contrário, o proletariado estabeleceria a sua. Essa é a linha estratégica que guiaria o Partido Comunista, já superior nas cidades. Ele manteria zelosamente sua independência como o partido do proletariado e, se conseguisse atrair as centenas de milhões de camponeses atrás de si, seria a força política mais poderosa do país. Havia o risco de intervenção estrangeira, mas nada uniria a China revolucionária tão firmemente quanto a visão da burguesia chinesa, até pouco tempo devotada ao seu país, atacando a China lado a lado com os odiados imperialistas. A China poderia suportar um bloqueio com muito mais facilidade que a Rússia. Uma China Soviética ligada a uma Rússia Soviética, apoiada por uma Terceira Internacional vastamente ampliada, alteraria integralmente a relação entre as forças capitalistas e revolucionárias no Extremo Oriente. Um bloco assim lançaria não apenas as economias britânica e japonesa na mais grave desordem, mas liberaria movimentos na Índia, em Burma e mesmo no Egito e no Oriente Médio que balançariam toda a estrutura do capitalismo. O movimento poderia talvez não se desenvolver tão poderosamente, mas havia uma chance de que, ao menos em uma parte substancial da China, a revolução poderia tomar o poder e usá-lo como base para futura expansão. Na pior das hipóteses, poderia ser totalmente derrotado. O proletariado estava pronto. Mas a coragem de suas palavras de ordem, a força de seu ataque dependeria da força do movimento camponês que ele conseguiria desenvolver.

Mesmo se falhasse, como a Revolução Russa de 1905, o proletariado chinês teria adquirido uma experiência incalculável, os elementos mais avançados do campesinato teriam tido tempo para reconhecer sobre qual partido seu futuro se assentava, e o partido, com lideranças testadas e experimentadas, estaria capaz de se preparar para o inevitável retorno da onda revolucionária, como o partido russo foi capaz de se preparar para uma nova revolução sobre a base de 1905. Esta é a teoria e a prática da Revolução Permanente. Lênin, vivo e passando bem, teria analisado diariamente o desenvolvimento dos eventos e por meio do Partido Comunista chinês teria preparado o caminho para as massas chinesas. O proletariado chinês, em 1926, tinha demonstrado do que era capaz. Começando em 1929, perto de cem milhões de camponeses demonstrariam por cinco anos heroicos quão pronto para a revolução estava o campesinato chinês. Não eram apenas as condições objetivas que eram muito favoráveis. A Revolução Russa e a Internacional Comunista exerceram enorme influência subjetiva. Os trabalhadores e camponeses chineses tinham amplo conhecimento do que os russos haviam feito e queriam fazer o mesmo. Confiavam no Partido Comunista chinês que sabiam ser guiado pelos agora mundialmente famosos líderes em Moscou. E ainda assim foi a liderança comunista em Moscou que levou a revolução na China ao desastre. Passo a passo, Stalin a dirigiu erroneamente com tamanha incompetência e desonestidade que, um ano depois da derrota final em dezembro de 1927, o nome da Internacional era desprezado em Xangai e Cantão.

Em abril de 1927, o partido tinha cerca de 60 mil membros, incluindo 53,8% de trabalhadores; em julho, o percentual de trabalhadores no partido era 75%. Em 8 de novembro de 1928, a circular do Comitê Central declarou: “O partido não dispõe de sequer um núcleo partidário saudável entre os trabalhadores industriais.” Em 1930, nem 2% eram trabalhadores. Em 1935, no Sétimo Congresso da Internacional Comunista, o secretário admitiu que haviam fracassado em fazer progressos na organização dos trabalhadores industriais. A maldição que Stalin e Bukharin lançaram sobre a Revolução Chinesa em 1925-27 permanecia sobre ela. 

O PARTIDO DE DUAS CLASSES DE STALIN

Stalin tivera tão pouca afinidade com política internacional quanto com economia. Agora na importante posição de sucessor de Lênin, ele deu continuidade ao papel que tinha iniciado em outubro de 1924, quando profetizou a iminente revolução na Europa. Em maio de 1925, o mês em que a greve de Xangai começou, falou na Universidade dos Povos do Leste e expôs seu leninismo para o movimento revolucionário no oriente. Ali ele apresentou para países como Egito e China aquela que seria, do ponto de vista leninista, a mais singular de todas as concepções de Stalin, superando até o rebaixamento à lata de lixo do capital básico. Ele propôs um partido de duas classes, um partido de trabalhadores e camponeses “segundo o modelo do Kuomintang.” Nem mesmo todos os professores vermelhos na Rússia puderam localizar citações de Lênin para apoiar essa doutrina, e o discurso é memorável como um dos poucos nos volumes selecionados que não é intercalado pela expressão “Lênin disse”.

“Eles terão de transcender a política da frente nacionalista unida e adotar a política de formar uma coalizão revolucionária entre os trabalhadores e a pequena-burguesia. Essa coalizão pode encontrar expressão na criação de um único partido cuja filiação será extraída da classe trabalhadora e do campesinato, seguindo o modelo do Kuomintang. Mas um tal partido deveria ser genuinamente representativo das duas forças componentes, os comunistas e a pequena-burguesia revolucionária. Essa coalizão deve garantir que a duplicidade da grande burguesia seja exposta sem disfarces, e que um ataque resoluto deverá ser feito ao imperialismo. A formação desse partido, composto, como vimos, de dois elementos distintos, é necessária e oportuna, desde que não atrapalhe as atividades dos comunistas, desde que não prejudique a liberdade de agitação e propaganda dos comunistas, desde que não impeça o proletariado de unir-se aos comunistas, desde que não enfraqueça a liderança comunista das forças revolucionárias. Porém a formação de tal partido não é necessária nem conveniente, a menos que todas essas condições sejam iminentes; de outra forma, os elementos comunistas seriam absorvidos pelos elementos da burguesia e os comunistas perderiam sua posição de líderes do exército proletário.

Nesse parágrafo confuso e disparatado, estava o germe de todas as confusões e disparates ainda por vir. É difícil dizer de onde ele tirou a ideia de um partido representando duas classes. Provavelmente, se deveu a um entendimento equivocado da frase "a ditadura democrática revolucionária do proletariado e do campesinato". Que pode haver apenas um partido proletário ou comunista, que um camponês possa se tornar membro de um partido comunista apenas adotando a política proletária do Partido Comunista, que um partido camponês seria uma entidade separada liderada pelo partido proletário, como os social-revolucionários formaram um partido minoritário na União Soviética entre novembro de 1917 e julho de 1918, que falar de um partido "composto, como vimos, por dois elementos distintos" em que os comunistas não seriam limitados pelos camponeses, era a verdadeira antítese de tudo aquilo pelo que Lenin havia lutado, estava em completa oposição ao que a Internacional Comunista defendia, era, de fato, o mais perigoso absurdo, especialmente na boca do líder do proletariado internacional. Afirmar tudo isso, é claro, era trotskismo. 

Dada a obstinação de Stalin e a subserviência de seus subordinados, podemos ver hoje que, a partir daquele momento, a Revolução Chinesa estava condenada. Para Stalin e Bukharin, a revolução, segundo o leninismo, era uma revolução democrático-burguesa contra os imperialistas estrangeiros e, portanto, seria realizada pela burguesia organizada no Kuomintang e pelo exército nacionalista do governo de Cantão que Borodin estava treinando. O papel do proletariado e do campesinato, portanto, era não fazer nada que atrapalhasse a burguesia e o Kuomintang em sua luta. Não foi à toa que ambos passaram os dois anos anteriores atacando a Revolução Permanente e todos os seus ensinamentos como o principal vício do trotskismo. Depois que os imperialistas tivessem sido lançados ao mar pela nação unida, por todas as classes, exceto a mais alta burguesia, então o proletariado e o campesinato se voltariam contra a burguesia e triunfariam. Isso em 1925, depois de 1905 e 1917, depois de mais de vinte anos lendo e explicando Lênin.


O KUOMINTANG


O partido de duas classes, que Stalin imaginou no modelo do Kuomintang, rapidamente se transformou no partido de quatro classes do Kuomintang.

O Kuomintang, a despeito do que Sun Yat-Sen e sua esposa possam pensar, era um partido de governo, que administrava uma grande extensão de território no sul da China. Em 1925, seus membros consistiam em cerca de 250 mil, grande burguesia, donos de fábricas, pequena-burguesia, profissionais liberais e pequenos comerciantes, proprietários de terras, a pequena nobreza, camponeses ricos e também, após a reorganização de Sun Yat-Sen, trabalhadores e camponeses pobres. Mas o proletariado estava sendo organizado em sindicatos sob a liderança do Partido Comunista. Assistimos ao seu crescimento constante. E o Kuomintang, tal como organizado, por sua própria natureza, não poderia ter nada a ver com uma expropriação revolucionária de terras pelos camponeses pobres. Poderia haver uma ala direita e uma ala esquerda (em janeiro de 1926, entre 278 delegados, havia 168 da esquerda e 45 da direita, além dos centristas), mas esse partido nunca poderia liderar um proletariado revolucionário e um campesinato revolucionário. Por que deveria? Não apenas na tese de Lênin ao Segundo Congresso, mas também nas teses suplementares apresentadas no Quarto Congresso, em 1922, os partidos proletários nas colônias haviam sido advertidos contra tais partidos e, em ambos os conjuntos de teses, o Kuomintang havia sido mencionado nominalmente como um dos especialmente perigosos. Trotsky, portanto, continuou a exigir que o Partido Comunista deixasse o Kuomintang. Qualquer que tivesse sido a justificativa prévia para estar dentro do Kuomintang, depois que a revolução tinha começado, o partido deveria sair a qualquer custo. O trabalho poderia ser conduzido de forma encoberta por algum tempo. Tinha sido assim com o Partido Bolchevique. A ascensão da revolução o traria novamente à tona com força renovada. Stalin e Bukharin condenaram isso como trotskismo e vincularam o Partido Comunista e a Revolução Chinesa ao Kuomintang.

Durante 1925, a ala esquerda do Kuomintang seguia as instruções de Sun Yat-Sen e, como bons liberais, demonstrou muita simpatia pelos movimentos dos trabalhadores. Havia organizado ligas camponesas para lutar contra os Ming Tuans, uma espécie de milícia fascista no campo. Mas alertaram os camponeses contra o confisco de terras. Isso viria depois, devidamente organizado em lei. Mas mesmo a formação dessas ligas camponesas causava insatisfação entre os elementos da direita no partido.

O Comitê Executivo, no entanto, era de esquerda, e deliberava entre os congressos. Stalin e Bukharin, através de Borodin, apoiaram a esquerda contra a direita, ou seja, apoiaram os comerciantes pequeno-burgueses e os pequenos capitalistas contra seus irmãos maiores. O Bureau Político, formado por nove membros, era de esquerda. Wang Chin-Wei (o mesmo que fora primeiro-ministro de Chiang Kai-Shek até alguns meses atrás – uma bala causou sua aposentadoria) era chefe do partido e do governo de Cantão. Ele era absolutamente de esquerda, e Borodin, o representante russo, era muito favorável a Wang Chin-Wei. Borodin, com o apoio de Wang, elaborou programas para as conferências do Kuomintang que pareciam suficientemente revolucionários, e o Partido Comunista chinês trabalhou e cresceu ao abrigo do Kuomintang de esquerda. Mas quando a greve de Xangai começou e lançou centenas de milhares de trabalhadores em greve no próprio Cantão, a burguesia e os proprietários de terras chineses ficaram assustados e exigiram a expulsão dos comunistas. Os comunistas agora tinham que sair e lutar pela revolução de acordo com Lênin, ou ficar e lutar por ela de acordo com o Kuomintang de esquerda. Stalin escolheu o Kuomintang de esquerda, e Borodin organizou um plano de campanha em conformidade.


A CAMPANHA DO NORTE


No norte, Chang Tso-Lin, o senhor da guerra pró-japonês, estabeleceu uma ditadura em Pequim, e reuniu alguns outros chefes militares para se opor aos nacionalistas do sul. Borodin e a ala esquerda, então, planejaram a revolução nacional da seguinte forma. Na primavera seguinte, as forças nacionalistas de Chiang Kai-Shek partiriam de Cantão, no extremo sul, ergueriam a bandeira da revolução, conquistando os Tchuns antinacionalistas, reunindo aqueles que desejavam uma China liberta e concluindo com a derrota de Chang Tso-Lin e a tomada da antiga capital Pequim. Chiang Kai-Shek estava disposto a liderar essa revolução, mas não queria marchar até Pequim deixando atrás de si um governo do Kuomintang radical sob a influência de Borodin. No entanto, seu partido precisava do apoio temporário da Internacional e apresentou pedido de filiação como partido simpatizante. Os stalinistas concordaram, como sempre Trotsky foi a dissidência solitária. Nas duas plenárias do Comitê Executivo, realizadas em fevereiro e novamente em novembro, Chiang enviou delegados fraternos. Ele e Stalin trocaram retratos. Mas em 20 de março de 1926, enquanto Borodin estava fora de Cantão, Chiang Kai-Shek uniu-se ao Kuomintang de direita, executou um golpe de estado, tomou o poder e forçou Wang Chin-Wei e outros membros radicais do Kuomintang a fugir do país. Ele se precipitou. Tinha o controle do exército, mas o movimento nacionalista ainda estava fraco demais para progredir sem apoio de massa. Houve uma forte reação contra Chiang e, em maio, a esquerda e a direita foram reconciliadas. Mas Chiang Kai-Shek tornou-se chefe do partido no lugar de Wang Chin-Wei e, no plenário de maio de 1926, ele estabeleceu termos severos. O Partido Comunista se comprometeu a não criticar as doutrinas de luta anticlasse de Sun Yat-Sen. Foi obrigado a dar uma lista de seus membros no Kuomintang a Chiang Kai-Shek (para que ele pudesse colocar as mãos neles quando quisesse). Foi proibido a seus membros tornarem-se chefes de qualquer contingente ou departamento do governo. Em todos os comitês importantes, seus membros eram limitados a um. Membros do Kuomintang foram proibidos de ingressar no Partido Comunista. Borodin, sob as ordens de Stalin, concordou com todas essas condições. Em troca, Chiang Kai-Shek expulsou alguns dos membros da ala direita. (Eles foram esperá-lo em Nanquim.) Assim, no momento em que a revolução precisava da liderança do Partido Comunista, Stalin deixava-o de mãos e pés atados. Marxismo à parte, Chiang Kai-Shek foi revelado. Stalin, no entanto, segue suas políticas até o fim e nunca cede ao trotskismo. As notícias desse golpe de estado teriam reforçado a insistência de Trotsky para que o Partido Comunista deixasse o Kuomintang imediatamente. Stalin provou que sua própria política estava correta por seu método favorito de argumentação. Ele suprimiu a notícia. Quando as notícias do golpe de estado finalmente vazaram, a Correspondência de Imprensa Internacional de 8 de abril de 1926 as chamou de "relato mentiroso". Na edição de 6 de maio do mesmo jornal, Voitinsky, membro da delegação russa de Borodin, afirmou que a notícia seria "uma invenção dos imperialistas". Encorajado, Chiang tornou ilegais todas as greves em Cantão, com a anuência de Borodin.

Com a retaguarda razoavelmente protegida da revolução, Chiang partiu em julho para o Norte, ostensivamente para combater os militaristas. Carregava consigo prensas de impressão e um imenso aparato de propaganda, desenvolvido e dirigido por comunistas, que apresentavam as palavras de ordem de Chiang. Acreditando que ele era o líder da revolução, as massas correram em seu apoio e os exércitos antinacionalistas desmoronaram. Ao ganhar confiança, Chiang suprimiu os sindicatos, as ligas camponesas e os comunistas. Seu apoio caiu. Ele reconvocou os comunistas, que prontamente retornaram, novamente fizeram propaganda para ele, usando o prestígio da Revolução de Outubro e do Estado Soviético a serviço de Chiang Kai-Shek, o líder da revolução. Onde os bolcheviques na Rússia pediam os sovietes e o confisco da terra, os comunistas agora agitavam por melhores condições de trabalho e uma redução de 20% no aluguel. Era tudo o que Chiang lhes permitia fazer. Chiang retomou seu progresso triunfante. Em setembro, o Vale do Yangtzé estava em suas mãos, e Stalin, Bukharin e a Imprensa Internacionalista estavam delirando de alegria. Em outubro, seu exército havia capturado a importante cidade tripla de Hankow, Wuchang e Hanyang, conhecida como Wuhan. O governo do Kuomintang foi transferido de Cantão para Wuhan e, antes de sair de Cantão, cancelou incondicionalmente a greve de Hong Kong e Cantão. O movimento durou dezesseis meses com vigor inabalável e, em todos os seus aspectos, é a maior greve da história. Em Cantão, também a ala esquerda da província de Kuomintang foi substituída pela direita, a famosa guarda dos trabalhadores foi desarmada, os trabalhadores revolucionários foram presos, os trabalhadores foram proibidos de agitar entre os camponeses, as manifestações anti-inglesas foram proibidas e a pequena nobreza ou pequenos proprietários de terras nas aldeias incentivados. A liderança do Partido Comunista submeteu-se a tudo. E, à medida que as notícias vazavam para a Rússia, a luta interna em Moscou entre o leninismo de Stalin e o trotskismo agora se estendia à política de Stalin para o Kuomintang.


REVOLUÇÃO PARA REDUÇÃO DE ALUGUEL


Em julho de 1926, Radek, membro da Oposição, reitor da Universidade Sun Yat-Sen em Moscou, escreveu ao Politburo do PCUS e pediu respostas a uma série de perguntas para que pudesse harmonizar suas palestras com a política da Internacional na China. As perguntas eram estranhas. Qual a posição do partido com relação à ditadura militar de Chiang Kai-Shek, iniciada após o golpe de estado de março de 1926 e apoiada por Borodin? Que trabalho o Kuomintang estava fazendo entre os camponeses? Um manifesto emitido pelo Comitê Central do partido chinês dizia: "Devemos continuar com um mínimo de luta de classes, e quando a política do Partido Comunista é designada bolchevique, não é uma questão de bolchevismo, mas do bolchevismo no interesse de toda a nação ". Stalin aprovou isso como leninismo?

Radek não recebeu resposta. Ele escreveu uma segunda carta em julho. Não houve resposta. Ele escreveu novamente em setembro. Ainda sem resposta. Stalin e Bukharin não se atreviam a dizer abertamente que eram responsáveis pelas instruções ao Partido Comunista da China de não fazer nada que acelerasse qualquer conflito com Chiang Kai-Shek. Mas, em novembro de 1926, após o Sétimo Plenário do CEIC (da qual participava um delegado fraterno de Chiang Kai-Shek), a Executiva emitiu um manifesto. Stalin havia proposto um partido de duas classes; Martynov, um de seus capangas, transformou o Kuomintang num partido de três classes. Agora, este manifesto definia o movimento revolucionário como um bloco de quatro classes, comédia na boca da burguesia liberal que tentava enganar as massas, mas um crime vergonhoso vindo da Internacional de Lenin, menos de três anos após sua morte.

"O proletariado está formando um bloco com o campesinato (que está ativamente lutando por seus interesses), com a pequena burguesia urbana e uma seção da burguesia capitalista. Essa combinação de forças encontrou sua expressão política em grupos correspondentes no Kuomintang e no governo de Cantão. Agora o movimento está no início da terceira etapa, às vésperas de uma nova combinação de classes. Nesta etapa, as forças motrizes do movimento serão um bloco de natureza ainda mais revolucionária – do proletariado, campesinato e pequena burguesia urbana, com exclusão de uma grande parte da grande burguesia capitalista. Não significa que toda a burguesia como classe será excluída da arena da luta pela emancipação nacional, pois além da pequena e média burguesia, mesmo certos estratos da grande burguesia podem, por um certo período, continuar marchando com a revolução... "

Que caneta escreveu isso não podemos dizer. Mas não pode haver erro sobre o criador dessas ideias. Foi o mesmo que chamou a luta entre Lenin e Trotsky de tempestade em uma xícara de chá e pediu apoio ao governo provisório em 1917.

Sobre o futuro governo chinês, Stalin viajara para longe desde o partido de duas classes.

"A estrutura do estado revolucionário será determinada por sua base de classes. Não será um estado democrático puramente burguês. O estado representará a ditadura democrática do proletariado, campesinato e outras classes exploradas. Será um governo anti-imperialista revolucionário de transição para o desenvolvimento não-capitalista (socialista)... "

Tudo isso significava que o Kuomintang governaria a partir de agora. Corajosamente, o manifesto foi lançado para a revolução agrária:

"O governo nacional de Cantão não será capaz de reter o poder, a revolução não avançará em direção à vitória completa sobre o imperialismo estrangeiro e a reação nativa, a menos que a libertação nacional seja identificada com a revolução agrária ..."

Isso soou grandioso o suficiente, mas foi apenas um dos floreios que Stalin habitualmente usa como prefácio da reação mais sombria. O parágrafo seguinte voava muito mais baixo:

"Embora reconheça que o Partido Comunista da China deva avançar com a demanda pela nacionalização da terra como sua viga-mestra no programa agrário do proletariado, é necessário, no momento, diferenciar as táticas agrárias de acordo com as condições econômicas e políticas peculiares que prevalecem nos vários distritos do território chinês....."

Isso significava simplesmente que as opiniões sobre a propriedade de Chiang Kai-Shek e os líderes da revolução do Kuomintang deveriam ser respeitadas. Qual era, portanto, o programa revolucionário? Tinha que ser um programa que Borodin e Chiang pudessem realizar pacificamente juntos. "O Partido Comunista da China e o Kuomintang devem executar imediatamente as seguintes medidas para trazer os camponeses para o lado da revolução".

E a primeira de uma longa lista de demandas foi:

(a) Reduzir ao mínimo os aluguéis.

Stalin e Bukharin estavam pedindo aos camponeses da China que fizessem uma revolução para "reduzir ao mínimo os aluguéis".

Nem uma vez foi mencionada a palavra soviete, e o manifesto teve o cuidado de excluir todas as possibilidades de organização de um. "O aparato do governo revolucionário nacional fornece uma maneira muito eficaz de alcançar o campesinato. O Partido Comunista deve usar esse caminho." O Kuomintang, portanto, deveria fazer a revolução camponesa.

Chiang limitou severamente a participação dos comunistas na organização do Kuomintang. Stalin e Bukharin, escondendo isso da Internacional, afirmaram cinicamente:

"Nas províncias recém-libertadas serão montados aparatos estatais do tipo do governo de Cantão. A tarefa dos comunistas e de seus aliados revolucionários é penetrar no aparato do novo governo para dar expressão prática ao programa agrário de revolução nacional. Isso será feito usando o aparato estatal para confisco de terras, redução de impostos, investimento de poder real nos comitês camponeses, realizando assim medidas progressivas de reforma com base em um programa revolucionário... "

Eles então deram o golpe tradicional no trotskismo: "Em vista disso e de muitas outras razões igualmente importantes, o ponto de vista de que o Partido Comunista deve deixar o Kuomintang está incorreto..."

O manifesto mostrou que eles conheciam muito bem a natureza do governo do Kuomintang em Cantão: "Desde a sua fundação, o verdadeiro poder do governo de Cantão está nas mãos do Kuomintang da ala direita (cinco dos seis comissários pertencem à ala direita)." Mas pediu-se aos comunistas que entrassem neste governo para ajudar a esquerda revolucionária contra a direita. Como se quatro classes revolucionárias não fossem suficientes, eles imaginavam cinco.

"O Partido Comunista da China deve se esforçar para transformar o Kuomintang em um verdadeiro Partido do Povo – um sólido bloco revolucionário do proletariado, campesinato, pequena burguesia urbana e outras classes oprimidas e exploradas que devem levar a uma luta decisiva contra o imperialismo. e seus agentes... "

Stalin e Bukharin poderiam falar sobre a revolução democrático-burguesa e a ditadura democrática do proletariado e campesinato e as demais classes, mas o governo do Cantão de Kuomintang, com cinco direitistas entre seus seis comissários, era bastante bom para eles. "O governo de Cantão é um Estado revolucionário principalmente devido ao seu caráter anti-imperialista..."

O programa industrial da revolução deveria ser:

(a) Nacionalização de ferrovias e hidrovias.

(b) Confisco de grandes empresas, minas e bancos com caráter de concessão estrangeira.

(c) Nacionalização da terra a ser realizada por sucessivas medidas de reforma radical aplicadas pelo estado revolucionário.

Por doze anos, antes de 1917, os bolcheviques pregaram incansavelmente palavras de ordem simples: república democrática, jornada diária de oito horas, terra para os camponeses. No entanto, com o proletariado chinês já em ação e milhões de camponeses famintos prontos para lutar, esses eram o programa e a política impostos a eles com toda a autoridade da Revolução de Outubro e da Internacional Comunista. Esse documento cruelmente enganoso e perigoso foi para Borodin e o Partido Comunista da China, para através deles desmoralizar as massas chinesas ardentes, mas confiantes e levar dezenas de milhares de pessoas para a armadilha da morte do Kuomintang.


A REVOLUÇÃO ACORRENTADA


Mas foi tudo o que Borodin e o Partido Comunista puderam fazer para conter as massas chinesas. Em janeiro de 1927, os filiados ao PC eram quase 60 mil; na Liga Comunista Jovem da China eram 35 mil, e os trabalhadores organizados, 230 mil em 1923, eram agora 2,8 milhoes, um número maior do que na Rússia de outubro de 1917. Por mais que Stalin desejasse detê-los para não desagradar Chiang Kai -Shek, as massas em Canton e Wuhan podiam sentir nas costas os golpes de reação. Nas províncias do sul, em março de 1927, dez milhões de camponeses haviam sido organizados nas ligas camponesas. Em Hupeh, os camponeses já estavam tomando a terra em grande escala. Além disso, a traição de Chiang Kai-Shek, deixada tão clara em março, estava agora se tornando aberta às massas. Nos primeiros meses de 1927, ele mantinha negociações com os senhores da guerra japoneses e pró-japoneses reacionários; e o Partido Comunista sabia disso. Quanto mais perto ele chegava de Xangai, mais ele abandonava a fina máscara. Desde dezembro, ele estava em conflito aberto com Borodin, Galen e outros comunistas. Mas sua única força residia no movimento de massas, e isso eles tinham, pelo manifesto de Stalin, de subordinar ao Kuomintang.

De repente, as massas se separaram. Em 3 de janeiro, os trabalhadores e a pequena burguesia de Hankow realizavam uma reunião perto da concessão britânica. As autoridades britânicas entraram em conflito com eles e as massas ocuparam espontaneamente a concessão, organizaram uma guarda dos trabalhadores e mantiveram o controle. A revolução no Sul explodiu novamente, e uma onda tão forte de sentimento nacionalista fluiu pelo país que até o pró-japonês Chang So-Lin, em Pequim, achou politicamente adequado falar da devolução das concessões. Chiang Kai-Shek, agora em Nanquim, hoje uma fortaleza de reação, com medo dos trabalhadores militantes do sul, exigia que a sede do governo fosse transferida para aquela cidade. Mas o Kuomintang de esquerda, com quem sempre houve hostilidade quase aberta, insistiu que, de acordo com uma resolução aprovada em Cantão, o governo deveria permanecer em Wuhan. Durante semanas, existiram praticamente dois governos do Kuomintang, dois comitês centrais e dois departamentos políticos. Chiang, ainda não estava pronto para se manifestar abertamente contra a Internacional, e elogiou o trotskismo porque os trotskistas exigiam a retirada do partido do Kuomintang. Na delegação russa, três jovens comunistas (todos antitrotskistas), Nassonov, Fokine e Albrecht, estavam irritados com a política suicida de Borodin. A ação ousada do proletariado chinês em Hankow deu a Borodin uma oportunidade. O Kuomintang de esquerda reuniu-se a seu redor e endureceu sua resistência a Chiang Kai-Shek. Mas Borodin, manietado por Stalin, não sabia o que fazer. Para as massas que mantinham Hankow, nem Borodin nem o partido chinês deram nenhuma diretriz. Em vez disso, repreenderam os trabalhadores que haviam formado a guarda e mantinham a ordem em Hankow.

Nassonov, Fokine e Albrecht instaram Borodin a deixar Xangai e ir a Wuhan para reunir o Kuomintang de Esquerda, iniciar uma ampla campanha de massa baseada na crescente militância das massas, explicar que a briga sobre a sede do governo não era pessoal, mas política, e exigir abertamente de Chiang Kai-Shek uma declaração política clara e decisiva. Borodin se ateve ao manifesto de Stalin.

Chiang tomou a ofensiva, e ele e a imprensa burguesa e imperialista trouxeram à tona a luta contra Borodin. Em 21 de fevereiro, Chiang proferiu um discurso violento contra o partido, e o conflito não pôde mais ser oculto. Borodin e o grupo permaneceram em silêncio diante das massas confusas. Instados a lançar o movimento camponês contra Chiang, declararam que os camponeses não queriam terra.


A REVOLUÇÃO ASSASSINADA


Em Xangai, o proletariado revolucionário, levado ao ponto de ebulição pelas vitórias e pela aproximação de Chiang Kai-Shek, líder da revolução, recebeu a notícia de que Chiang havia derrotado Sun Chang-Fang, o general feudal reacionário que dominava Xangai e arredores. A alegria dos trabalhadores explodiu, em 18 de fevereiro, numa greve geral espontânea na qual 300 mil trabalhadores se juntaram. Uma parte da pequena-burguesia fechou suas lojas e entrou na greve, a frota protegeu os trabalhadores e a greve se transformou em um levante armado. Um destacamento das tropas de Sun Chang-Fang na cidade não resistiu à pressão. Alguns soldados começaram a saquear, outros queriam se juntar à revolução nacionalista. Mas o Comitê Central Chinês, que não esperava a greve, deliberou se o levante ocorreria ou não, enquanto este acontecia. Nenhuma diretiva foi emitida. Os slogans eram "Abaixo Sun Chang-Fang", "Viva a Expediçao do Norte” e "Viva Chiang Kai Shek". Nenhum slogan anti-imperialista foi emitido em Xangai, o centro do imperialismo estrangeiro na China. O movimento entrou em colapso.

Nassonov, Fokine e Albrecht, vendo a revolução sendo destruída por quem deveria liderá-la, enviaram a Moscou uma longa e amarga queixa contra a liderança de Borodin e os líderes do Partido Comunista Chinês.

“A palavra de ordem “assembleia nacional democrática”, que havíamos avançado pouco antes da greve, foi concebido como um novo meio para acordos por cima, e não foi lançada entre as massas. Como resultado, deixamos escapar um momento histórico excepcionalmente favorável, uma rara combinação de circunstâncias, onde o poder estava nas ruas, mas o partido não sabia como tomá-lo. Pior ainda, não queria tomá-lo; tinha medo.”

"Assim, a tendência da direita, que já contamina o partido há um ano, encontrou uma expressão grosseira e consumada durante os eventos de Xangai, que só podem ser comparadas às táticas do Comitê Central Alemão em 1923 e dos mencheviques durante o a revolução de dezembro de 1905. No entanto, existe uma diferença: esta reside no fato de que em Xangai o proletariado tinha consideravelmente mais forças e chances do seu lado e, com uma intervenção enérgica, poderia ter conquistado Xangai pela revolução e mudado a relação de forças dentro do Kuomintang.

"Não é por acaso que a liderança do Partido Comunista Chinês cometeu esses erros. Eles vieram da concepção de direita da revolução, da falta de compreensão do movimento de massas e da total falta de atenção a ele".

Mas a concepção direitista da revolução que contaminou o partido por um ano veio de Stalin. Stalin lidou com o protesto contra sua política da maneira usual. Ele suprimiu a carta, lançou Nassonov em desgraça e o baniu para a América.

Enquanto o proletariado de Xangai lutava, Chiang Kai-Shek, a apenas dois dias de marcha da cidade, não entraria. Ele esperou enquanto os soldados da reação "sangravam" os trabalhadores. (O governador militar de Xangai mais tarde receberia um comando no exército de Chiang.) Em vez disso, Chiang espalhou o terror nas províncias periféricas. Nassonov e seus amigos haviam escrito sua carta desesperada em 17 de março, acreditando que o proletariado de Xangai ficaria arrasado por algum tempo. Porém, em 21 de março, os trabalhadores de Xangai subiram novamente espontaneamente e desta vez expulsaram as forças do norte. Milhões de trabalhadores em todo o mundo sofreram nas mãos da Internacional dominada por Stalin, mas nenhum tanto quanto o valioso proletariado de Xangai. Durante três semanas eles ocuparam a cidade. A essa altura, as massas sabiam que Chiang Kai-Shek significava traição, pois seu exército ficou do lado de fora dos portões enquanto lutavam com os reacionários. A maioria dos trabalhadores desejava fechar os portões para Chiang e lutar contra ele. Mas as ordens de Stalin eram rígidas. Mandalian, um oficial comunista de Xangai na época, escreveu que as ordens para os trabalhadores eram "não provocar Chiang" e "em caso de extrema necessidade, enterrar as armas" e Bukharin, em seu Problemas da Revolução Chinesa, confirmou isso. Do próprio exército de Chiang veio um aviso do golpe que se estava preparando. Seu exército não era homogêneo e continha elementos dedicados à revolução. Certas seções do exército de Chiang entraram na cidade, mas não tomaram medidas. A primeira divisão foi liderada por Say-O, que havia sido promovido das fileiras, e ele e sua divisão eram simpáticos ao movimento de massas. Chiang Kai-Shek sabia disso e odiava Say-O. Enquanto o exército principal estava do lado de fora dos portões de Xangai, Chiang chamou Say-O para o quartel-general, recebeu-o friamente e propôs que ele deixasse a cidade e seguisse para o front. Say-O procurou o Comitê Central do Partido Comunista Chinês e disse-lhes que não voltaria a Chiang Kai-Shek porque temia uma armadilha. Ele estava disposto a permanecer em Xangai e lutar com os trabalhadores contra o golpe contrarrevolucionário que Chiang estava preparando. Tchen Diu-Su e os líderes do partido chinês disseram que sabiam que a derrubada estava sendo preparada, mas que não queriam um conflito prematuro com Chiang Kai-Shek. Say-O, assim, liderou sua divisão para fora da cidade.

Mas a divisão nas fileiras do Kuomintang e a traição de Chiang agora não eram segredo e eram discutidas abertamente, mesmo na imprensa imperialista. O partido chinês, rapidamente agarrando-se a Moscou, tranquilizou as dúvidas dos trabalhadores de Xangai.

Em 6 de abril, Stalin se pronunciou em uma reunião em Moscou, e adotou-se por unanimidade uma resolução condenando o trotskismo e endossando a linha do Partido Comunista chinês:

"Esta reunião considera a demanda de que o Partido Comunista da China deixe o Kuomintang como equivalente ao isolamento do PC da China e do proletariado do movimento nacional pela emancipação da China e considera ainda que essa demanda é absolutamente falsa e errônea. "

Em todo o mundo, a Internacional Comunista, drogada pela política stalinista e pelas mentiras stalinistas, aguardava a vitória de Chiang Kai-Shek. Em 23 de março, o Partido Comunista da França realizou uma grande reunião em Paris, na qual apareceram Cachin, Semard e Monmousseau. Eles enviaram um telegrama para Chiang Kai-Shek: "Os trabalhadores de Paris saúdam a entrada do exército revolucionário chinês em Xangai. Cinqüenta e seis anos após a Comuna de Paris e dez anos após a Rússia, a Comuna Chinesa marca uma nova etapa no desenvolvimento da revolução mundial".

Mas os trabalhadores de Xangai sabiam que Chiang era um traidor. Os britânicos e americanos bombardearam Nanquim e mataram sete mil e os imperialistas estavam incitando abertamente Chiang contra os trabalhadores. Para acalmar o sentimento, portanto, o Partido Comunista e o Kuomintang emitiram um manifesto conjunto em Xangai em 6 de abril. Em toda a literatura enganosa da Internacional Stalinista, esse manifesto é talvez o mais criminoso.

"A revolução nacional alcançou a última base do imperialismo na China, Xangai. Os contrarrevolucionários, dentro e fora da China, estão divulgando relatos falsos para colocar nossos dois partidos em oposição um ao outro. Alguns dizem que o Partido Comunista está se preparando para formar um governo dos trabalhadores, derrubar o Kuomintang e recuperar as concessões por força de armas. Outros dizem que os líderes do Kuomintang pretendem fazer guerra ao Partido Comunista, reprimir os sindicatos e dissolver as organizações de defesa dos trabalhadores.

"Agora não é hora de discutir a origem desses rumores maliciosos. O órgão supremo do Kuomintang declarou em sua última sessão plenária que não tem a menor intenção de atacar o Partido Comunista ou de reprimir os sindicatos. As autoridades militares em Xangai declararam total lealdade ao Comitê Central do Kuomintang. Se houver divergências de opinião, elas podem ser resolvidas de forma amigável. O Partido Comunista está se esforçando para manter a ordem nos territórios livres. Já aprovou completamente a tática do Governo Nacional de não buscar a devolução das concessões pela força armada. O Conselho de Comércio de Xangai também declarou que não tentará entrar na concessão por violência. Ao mesmo tempo, declarou que aprovou totalmente a cooperação entre todas as classes oprimidas através da formação de um governo local. Diante desses fatos, não há base alguma para esses rumores maliciosos ".

Em 12 de abril, Chiang Kai-Shek, tendo concluído seus acordos com os imperialistas, lançou o terror contra os trabalhadores de Xangai. Os destacamentos de espada longa de Chiang marcharam pelas ruas, executando trabalhadores no local; alguns dos grevistas do departamento ferroviário foram jogados nos fornos das locomotivas. O Partido Comunista, o movimento dos sindicatos, todas as organizações de trabalhadores foram despedaçadas e levadas à ilegalidade. A contrarrevolução chinesa, apoiada pelo imperialismo, reinou triunfante em Xangai, enquanto Stalin e Bukharin em Moscou lideraram toda a Internacional Comunista em um uivo penetrante de traição.

Xangai pode estar perdida, mas uma coisa deve ser salva – o prestígio de Stalin contra o trotskismo. No mês seguinte, no oitavo plenário do C.E.I.C., Stalin expôs os erros da Oposição:

"A Oposição está insatisfeita porque os trabalhadores de Xangai não entraram em uma batalha decisiva contra os imperialistas e seus lacaios. Mas não entende que a revolução na China não pode se desenvolver em ritmo acelerado. A Oposição não entende que não se pode iniciar uma luta decisiva sob condições desfavoráveis. A oposição não entende que não evitar uma luta decisiva sob condições desfavoráveis (quando pode ser evitada), significa facilitar o trabalho dos inimigos da revolução... "

Na Oitava Plenária, Stalin e Bukharin insistiram que os comunistas deveriam permanecer no Kuomintang e agora deveriam apoiar o Kuomintang de esquerda e o governo de Wuhan como líderes da revolução. Wang Chin-Wei foi substituído por Chiang Kai-Shek. Borodin, na China, enviava mensagens urgentes a Stalin, dizendo-lhe que os líderes do Kuomintang em Wuhan estavam determinados a impedir a crescente revolução agrária, mesmo ao custo de um racha com Moscou. Do ponto de vista de Stalin, a única coisa a manter era a revolução agrária. Para ele, o governo de esquerda do Kuomintang em Wuhan, com dois comunistas e apoiado por Feng Yu-Hsiang (o general cristão), era agora o governo revolucionário, e seu chefe, Wang Chin-Wei, foi imediatamente batizado como líder da Revolução Chinesa.

É nesta fase que a responsabilidade pessoal de Stalin (e Bukharim) assume proporções internacionais. Eles poderiam ter mudado a política então. É verdade que Stalin tinha o poder que tinha por que era o representante ideal da burocracia. Mas uma mudança de política não envolvia de forma alguma a posição interna da burocracia. Prova disso é que, em alguns meses, a política foi alterada violentamente. Mas a teimosa ignorância e a cegueira política de Stalin impediram a revolução.

Sete anos antes, Lênin dissera que a China estava madura para os sovietes. Agora, em maio de 1927, após dois anos de revolução, Stalin rejeitou completamente a política dos sovietes pela qual a Oposição de Esquerda pressionava. "Agora, podemos dizer que a situação na Rússia de março a julho de 1917 representa uma analogia à situação atual na China? Não, isso não pode ser dito ... A história dos sovietes dos trabalhadores mostra que esses sovietes podem existir e se desenvolver ainda mais apenas se forem dadas premissas favoráveis para uma transição direta da revolução democrático-burguesa para a revolução proletária... "

Trotsky, embora consciente de que argumentos eram inúteis contra uma Internacional stalinizada, liderou o ataque da oposição de esquerda com o mesmo vigor e coragem.

"Stalin novamente se declarou aqui contra os sovietes dos trabalhadores e camponeses com o argumento de que o Kuomintang e o governo de Wuhan são meios e instrumentos suficientes para a revolução agrária. Desse modo, Stalin assume e quer que a Internacional assuma a responsabilidade pela política do Kuomintang e do governo Wuhan, como ele assumiu repetidamente a responsabilidade pela política do antigo 'governo nacional' de Chiang Kai-Shek (particularmente em seu discurso de 5 de abril, cujo estenograma, é claro, foi mantido oculto da Internacional)...”

"A revolução agrária é uma coisa séria. Políticos do tipo de Wang Chin-Wei, sob condições difíceis, se unirão dez vezes com Chiang Kai-Shek contra trabalhadores e camponeses. Em tais condições, dois comunistas em um governo burguês se tornam reféns impotentes, senão uma máscara direta para a preparação de um novo golpe contra as massas trabalhadoras. Dizemos aos trabalhadores da China: Os camponeses não levarão a revolução agrária até o fim se deixarem-se liderar por radicais pequeno-burgueses em vez de vocês, os proletários revolucionários. Portanto, edifiquem os seus sovietes de trabalhadores, os aliem aos sovietes camponeses, armem-se através dos sovietes, atirem nos generais que não reconhecem os sovietes, atirem nos burocratas e liberais burgueses que organizarão levantes contra os sovietes. Somente através dos sovietes dos camponeses e dos soldados vocês conquistarão a maioria dos soldados de Chiang Kai-Shek para o seu lado..."

O Pleno adotou uma resolução contra o trotskismo:

"O camarada Trotsky ... exigiu na Sessão Plenária o estabelecimento imediato do poder dual na forma de sovietes e a adoção imediata de um caminho para a derrubada do governo de esquerda do Kuomintang. Essa demanda aparentemente ultra-esquerdista, mas na realidade oportunista, não é nada além da repetição da antiga posição trotskista de pular o estágio pequeno-burguês e camponês da revolução ".

Exceto por uma nota afirmando que a linha da IC estava correta, nenhum relato desse Pleno de maio foi publicado até um ano depois, muito depois que a Oposição foi expulsa e tornou públicos alguns dos documentos. Enquanto o Pleno estava sentado, os generais tomaram o poder na província de Honan, um mês depois Feng Yu-hsiang se aliou a Chiang Kai-Shek e, antes de mais um mês, Wang Chin-Wei, o novo líder da revolução, e o governo de Wuhan chegaram a um acordo com Chiang Kai-Shek e passaram ao fio da espada o movimento dos trabalhadores em Wuhan. Ainda mais amarga do que a dos trabalhadores de Xangai foi a experiência dos camponeses no distrito revolucionário de Changsha, importante centro revolucionário próximo a Wuhan. O exército do Kuomintang em Changsha consistia em apenas 1,7 mil soldados, e os camponeses ao redor tinham destacamentos armados compostos por 20 mil homens. Quando os camponeses souberam que os generais contrarrevolucionários começaram a esmagar o movimento nacional, reuniram-se em torno de Changsha, preparando-se para marchar sobre a cidade. Porém, nesse ponto, veio uma carta do Comitê Central do Partido Comunista chinês. Fiéis às instruções dos grandes revolucionários de Moscou, disseram aos camponeses que evitassem conflitos e transferissem o assunto para o governo revolucionário de Wuhan. O Comitê Distrital ordenou que os camponeses se retirassem. Dois destacamentos falharam em receber a mensagem a tempo, avançaram sobre o próprio Wuhan e foram destruídos pelos soldados de Wang Chin-Wei.


CONFUSÃO NA OPOSIÇÃO


A exposição implacável da falsa política na China apenas intensificou os ataques de Stalin contra a política da Oposição em casa, e a confusão nas fileiras da Oposição deu a Stalin e Bukharin a oportunidade de obter vitórias ideológicas. Nos primeiros estágios da Revolução Chinesa, Zinoviev, como Presidente da Internacional Comunista, prestara-se ao leninismo de Stalin. Quando o bloco de Zinoviev-Trotsky foi formado, a posição inflexível de Trotsky pela retirada imediata do Kuomintang, que ele mantinha desde 1923, foi rejeitada por Zinoviev, e Trotsky foi obrigado, por uma questão de disciplina, a moderar sua demanda por retirada imediata. Stalin e Bukharin conheciam muito bem as diferenças entre Trotsky e Zinoviev, mas aproveitaram essa divergência e fizeram uma grande jogada contra a Oposição, enquanto Chiang Kai-Shek e Wang Chin-Wei massacraram dezenas de milhares de trabalhadores e camponeses chineses iludidos. Depois de Wuhan, o grupo de Trotsky sobrepôs-se ao de Zinoviev e manifestou-se ostensivamente pela retirada do Kuomintang. Stalin manteve a recusa.


O REFLUXO TOMADO POR FLUXO


O proletariado havia sido totalmente derrotado em Xangai e Wuhan. O movimento camponês, que deveria mostrar sua força um ano depois, ainda era prejudicado pela política stalinista. Como sempre, esse foi o momento escolhido por Stalin para fazer uma curva acentuada para a esquerda. Sovietes, inadmissíveis em maio, foram proclamados em julho a tarefa imediata. O prestígio, no entanto, tinha que ser mantido. A primeira coisa a fazer foi culpar a liderança na China, que foi condenada inapelavelmente. Bukharin fez o trabalho sujo e despejou um jato de agressões sobre ela. Um novo representante foi enviado para substituir Borodin. Telegramas de Moscou convocaram uma conferência apressada. Uma nova liderança foi estabelecida e o caminho estabelecido para a revolta em massa. A Oposição de Esquerda levantou um protesto contra os cruéis massacres e desilusões que inevitavelmente se seguiriam. Eles agora eram violentamente agredidos como liquidacionistas. Em 9 de agosto, uma sessão conjunta do Comitê Central e do PCUS fez a seguinte declaração: "A Revolução Chinesa não apenas não está em refluxo, como entrou em um novo estágio mais alto.... Não apenas a força das massas trabalhadoras da China ainda não está esgotada, mas é exatamente agora que está começando a se manifestar em um novo avanço da luta revolucionária." Nesta terrível orientação, a revolução derrotada foi despedaçada. Levante após levante, condenada antecipadamente ao fracasso, destruiu alguns dos melhores e mais corajosos dos revolucionários chineses. Em 19 de setembro, depois que duas revoltas foram esmagadas, o Kuomintang foi finalmente abandonado. Moscou, porém, ainda pregava a ascensão da revolução a um estágio mais alto e à vitória inevitável.

Todos na China que se opunham a essa política foram expulsos impiedosamente do partido. Em Moscou, a Oposição de Esquerda foi ridicularizada como contrarrevolucionária. Esse foi o leninismo que levou à infeliz insurreição de Cantão em dezembro de 1927, quando, sem preparação, sem qualquer sinal de um aumento de um levante em massa de camponeses, com milhares de soldados do Kuomintang dentro e nas cercanias de Cantão, a Internacional Comunista incentivou os trabalhadores a tomarem a cidade que eles mantiveram por dois ou três dias. A insurreição foi programada para coincidir com o Décimo-Quinto Congresso do Partido Russo, onde Stalin expunha os erros da Oposição. Mais de sete mil trabalhadores pagaram com a vida por esta última aventura stalinista. Do primeiro ao último, cem mil trabalhadores e camponeses chineses perderam a vida fazendo a revolução do Kuomintang.

Alguns comunistas que escaparam da comuna de Cantão com outros remanescentes do movimento revolucionário, bandos de camponeses insurgentes e ex-soldados do Kuomintang, insurgiram o campo na China Central e formaram a China Soviética. Com a morte do movimento proletário, os sovietes dos camponeses chineses seriam derrotados, mas Chiang Kai-Shek levou seis anos para fazer isso e demonstrou o que poderia ter sido alcançado na China por uma combinação de proletariado e campesinato. Os restos do Exército Vermelho estão agora vagando em algum lugar no norte da China. Enquanto a China Vermelha durou, a Internacional Comunista, em escritos e discursos, a alardeava. Stalin nem tanto. Com a derrota da revolução, seu papel aberto como estrategista revolucionário chegou ao fim. No segundo volume de seus discursos coletados, há apenas uma referência direta à revolução. É na melhor verve stalinista e merece consideração. É uma daquelas declarações reveladoras que explicam muitas coisas na história da Rússia soviética. "Dizem que um governo soviético já foi formado lá. Se isso é verdade, acho que não há nada para se surpreender. Não há dúvida de que apenas os sovietes podem salvar a China do colapso final e da mendicância". Assim falou o líder do proletariado internacional em seu relatório político ao décimo sexto congresso. Mas não foi apenas sobre a revolução na China que ficou em silêncio. Desde então, ele nunca assumiu abertamente sua responsabilidade pela política da Internacional. Ele poderia enviar a Oposição para a Sibéria e aprovar inúmeras resoluções condenando a política oposicionista e justificando a sua própria, a qual teria sido bem-sucedida se não fosse pelos erros da liderança na China. Mas nada poderia apagar sua responsabilidade pelo hediondo fracasso, e ele não correria esse risco novamente.

Que explicação pode ser dada sobre a política na China entre 1923 e 1927? A participação de Bukharin nela pode ser negligenciada. Stalin usou antigos líderes soviéticos, um após o outro, como porta-vozes: depois os deixava de lado se a política falhava. A política era dele. O que havia por trás? Não era sabotagem consciente.

Isso viria depois. Stalin gastou enormes quantias na China. Ele sabia que uma Revolução Chinesa de sucesso fortaleceria enormemente a Rússia no Extremo Oriente, o fracasso deixaria a Rússia na posição em que está hoje, com a Ferrovia Oriental Chinesa perdida, ameaçada pela China e pelo Japão. Ele queria uma Revolução Chinesa, mas não acreditava na capacidade das massas chinesas de fazer uma. Este homem de aço, feroz bolchevique, etc., é antes de tudo um burocrata (e, portanto, o homem representativo da burocracia russa). Como Blum, Citrine, Wels, Leipart, Otto Bauer e os outros mencheviques, ele acredita na burguesia muito mais do que no proletariado. Ele estava preparado em 1917 para apoiar a burguesia russa em vez de depender do proletariado internacional. Em 1925-1927, apesar de todos os fatos e avisos, ele se apegou a Chiang Kai-Shek e Wang Chin-Wei. As consequências, no entanto, não o levaram a reconhecer erros. Teve o resultado oposto. A burocracia agora não apenas na teoria, mas de fato deu as costas à revolução. A partir de então, a Internacional tinha um objetivo exclusivo - a defesa da URSS.

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