Leon Trótski - A invasão japonesa da Manchúria

Atualizado: Jan 21



30 de novembro de 1931


A inoperância da Liga das Nações no conflito sino-japonês supera todas as predições de seus mais implacáveis inimigos e críticos. Seu caráter contraditório (eu preferiria dizer, se me permitem, seu caráter traiçoeiro) adquire sua máxima expressão na França. Seu delegado oficial, o ministro das Relações Exteriores Briand, está levando a cabo uma campanha pela paz da Liga, enquanto que toda a imprensa governamental francesa, começando pelo Temps, apoia a intervenção japonesa com todas as suas forças, como desconhecendo a sua própria diplomacia oficial. Quem seguir cotidianamente os editoriais do Le Temps, pode pensar que se está lendo um órgão da cúpula de Tóquio e não do Ministério de Relações Exteriores de Paris. É evidente que as diferenças entre a verdadeira política de Briand e as operações militares do general Honjo não podem ser muito grandes se a imprensa semi-oficial francesa pode conciliar com êxito ambas posições.

Aqui vemos uma vez mais como a França, para manter a hegemonia obtida em Versalhes (hegemonia instável já que não coincide com o real peso econômico relativo do país), se vê obrigada a buscar aliados entre todos os elementos reacionários da Europa e do mundo, e a apoiar a violência militar, a expansão colonial, etc., onde quer que ela apareça.

Porém, nem precisa dizer, o conflito sino-japonês, ou mais precisamente o ataque militar do Japão à China, teve que obter primeiro o apoio em Tóquio antes que em Paris, e em certo sentido também em Nanquim. Os dramáticos acontecimentos atuais na Manchúria surgiram diretamente da supressão da revolução chinesa e da iminência da revolução no Japão.

A revolução chinesa de 1925-1927 foi um movimento de liberação nacional e pôs em ação massas enormes. O Partido do Kuomintang, tendo vencido a direção do movimento, conseguiu sufocar finalmente a revolução por meios militares. Isto impediu a formação de uma nação democrática, debilitou a China, intensificou a luta entre camarilhas de generais e despertou portanto a sanha predatória, especialmente no Japão. De todas formas, a intervenção militar do Japão na Manchúria não é uma expressão da força do atual estado japonês. Pelo contrário, este passo foi ditado pela sua crescente fraqueza. É extremamente instrutivo considerar a analogia entre a aventura do czarismo na Manchúria, que levou à guerra de 1904-1905, e esta aventura do governo do mikado que se convertirá inevitavelmente em guerra ou, mais exatamente, em uma série de guerras.

Nessa ocasião, o governo czarista precipitou-se nesta situação no Oriente na sua busca de uma saída para as intoleráveis contradições internas entre um capitalismo em expansão e as arcaicas estruturas de casta semi-feudais do campo. Porém o remédio foi pior do que a doença e levou à primeira revolução russa em 1905.

A estratificação agrária e de casta do Japão continua sendo semi-feudal. No início do século a contradição entre o jovem capitalismo japonês e o velho regime do estado ainda não tinha se desenvolvido completamente. Pelo contrário, o capitalismo utiliza com sucesso as velhas e firmes classes, instituições e tradições feudais para seus próprios fins militares. Esta combinação foi precisamente o que permitiu ao Japão a sua colossal vitória sobre a Rússia czarista em 1904-1905.

Desde então a situação mudou radicalmente. No último quarto de século, o desenvolvimento capitalista do Japão minou profundamente as velhas relações e instituições japonesas que coroam a figura do mikado. As classes dominantes assinalam aos camponeses japoneses as copiosas reservas de terras da Manchúria, mas estes querem solucionar primeiro o problema agrário em casa. Somente sobre novas bases democráticas poderá o Japão tomar forma finalmente como nação moderna. Os donos do destino do Japão sentem-se agora aproximadamente como se sentía a monarquia czarista no início do século. E por uma sinistra ironia do destino, os dirigentes do Japão procuram uma saída nessas mesmas planícies da Manchúria onde a monarquia czarista recebeu um golpe pré-revolucionário tão sério.

Não é fácil predizer qual o caminho que seguirão os acontecimentos no Oriente Distante nos próximos dias ou semanas. Estão em ação fatores contraditórios em excesso, que se entrecruzam em diferentes direções. Fazer um balanço nesta conjuntura é especialmente difícil porque o próprio governo japonês, ao ser o governo de uma época pré-revolucionária, está marcado por uma instabilidade incomum e por uma tendência a ações imprevisíveis. 

Porém o rumo geral pode-se predizer quase sem risco de erro, mais além do lado em direção ao qual se incline a balança nas próximas semanas. Ainda quando se possa deter agora a expansão das atividades militares japonesas, e impedir que se convirtam diretamente em uma extensa frente de guerra, isto não significará mais que uma pausa. Os círculos dirigentes do Japão fincaram pé na Manchúria. A Liga das Nações tenta resolver o conflito (na medida em que realmente tenta fazê-lo) a través de novas concessões ao Japão às custas da China. Isto significa que, ainda com os resultados mais favoráveis possíveis das atuais operações militares, o Japão fortalecerá a sua posição na Manchúria.

Para a China, os “direitos” do Japão na Manchúria serão como uma espinha em um pé descalço. É verdade que está enfraquecida pelo domínio inquestionado das diferentes camarilhas militares do Kuomintang. Mas o despertar nacional da China continua sendo um fator de uma importância histórica enorme, que continuará aumentando. Para manter a sua posição, o Japão se verá inevitavelmente obrigado a recorrer a novas expedições militares. A necessidade de enviar novas tropas criará por sua vez o desejo de justificar o gasto através uma extensão dos “direitos” japoneses, ou seja com novas conquistas e violações.

Este processo tem a sua própria lógica automática. A posição internacional do Japão estará sujeita cada vez mais a uma maior tensão. Os gastos militares crescerão rapidamente. A medida que se desenvolvem os acontecimentos, as considerações originais de vantagens econômicas darão lugar a considerações de prestígio militar. Aumentará o descontentamento em todo o país. Nessas circunstâncias a Manchúria pode converter-se muito bem para a monarquia japonesa no que foi o Marrocos para a espanhola, e inclusive a mais curto prazo.

Não poderiam os atuais acontecimentos da Manchúria levar a uma guerra entre o Japão e a União Soviética? Sobre este assunto, e em geral sobre o que acontecerá, só posso falar, é claro, como um observador não iniciado nos planos e intenções dos respectivos governos, e julgar exclusivamente com base nos indícios objetivos e na lógica das coisas.

Em todo caso pode excluir-se, em relação governo soviético, todo desejo de conflito com o Japão. Sobre isto é extremamente instrutivo observar o novo rumo que tomou recentemente a imprensa semi-oficial francesa. Durante as primeiras semanas da intervenção, Le Temps não cansava de repetir: “Não há por que temer nada em relação ao Japão, mas sim em relação à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que evidentemente está pronta para a agressão”. Irrompiam as histórias sobre concentrações de tropas soviéticas como se jorrassem do corno da abundância. Assim se distraía a atenção da opinião pública, e as autoridades militares japonesas ganhavam o tempo que precisavam. Quando a fragilidade da Liga das Nações se mostrou bastante evidente, a imprensa semi-oficial francesa assumiu a tarefa (ou melhor, lhe foi dada a ela) que os governos das grandes potências aceitassem o fato consumado e de aproximá-las o mais possível ao Japão. Desde esse momento Le Temps começou a afirmar que não se podia nem falar de uma indiferença da URSS, que não era mais que um conflito local, um problema de províncias, que tudo poderia arranjar-se, o melhor possível, que não havia porque transtornar-se e interferir: o próprio Japão sabia o que era melhor para ele na Manchúria.

A imprensa francesa buscou um argumento para estas novas afirmações tranquilizadoras na “fraqueza” da URSS e do Exército Vermelho. Para isto fez uso frequente da analogia já mencionada com a guerra russo-japonesa de 1904-1905. A analogia é muito instrutiva, mas com uma condição: colocar um sinal a mais onde antes havia um sinal a menos e vice-versa. Porque se o Japão atual não se parece em nada ao do começo do século, ainda menos parecida é a União Soviética com a Rússia czarista. É claro que a Revolução Russa está longe de ter-se completado. Há muitas contradições no desenvolvimento econômico soviético e às vezes se transformam em dificuldades políticas. Negá-lo seria adotar a política do avestruz. Mas quando se fazem afirmações de grande escala histórica deve-se manter o sentido das proporções, e não deixar que os fatores secundários nos distraiam dos fundamentais. O Exército Vermelho é o resultado histórico de três revoluções, que despertaram e educaram a nação russa e junto com ela a muitos povos da União Soviética e de várias nações amigas. Em caso de guerra (cuja necessidade e inevitabilidade compreenderão as massas dos habitantes da URSS) a energia que desataram essas três revoluções se transformará em uma força poderosa. Só um cego pode deixar de enxergar isso!

Certamente uma frente militar no Oriente Distante estaria muito longe. As conexões por trem apresentam sérias dificuldades. Não há dúvidas sobre a vantagem do Japão neste aspecto. Mas só neste aspecto. Em qualquer outro, a vantagem decisiva está do lado da URSS. O Exército Vermelho só demonstraria a sua enorme superioridade sobre o atual exército contrarrevolucionario japonês, e isto tem por si mesmo uma importância decisiva. Mas além disso, as operações teriam lugar em um país profundamente hostil ao Japão e amigo da União Soviética. Porque se esta se vê obrigada a entrar em guerra, pode e deve encará-la como aliada ao povo chinês na sua luta pela liberação nacional.

Por mais debilitada que esteja a China pelo regime militarista, as colossais sacudidas de duas revoluções têm preparado inumeráveis elementos para a construção de uma nova China. Centenas de milhares, milhões de chineses sabem como usar uma arma. A fome e um sentimento nacional reaceso os impulsionam a usá-las. Ainda hoje, que os destacamentos guerrilheiros fustigam constantemente as líneas de comunicação japonesas e ameaçam as suas unidades, as improvisadas tropas chinesas constituem uma série ameaça para as japonesas, não menor do que o foram as guerrilhas espanholas para as tropas de ocupação de Napoleão. Uma aliança militar entre a República soviética e a China seria uma verdadeira catástrofe para o Japão. 

Então, por quê – poderiam me perguntar – tenta a União Soviética evitar a guerra? As pacíficas declarações de Moscou, não são meras fachadas diplomáticas que ocultam intenções que não têm nada de pacíficas? Não, não acredito nisso. Inclusive, considero isso impossível. Quaisquer que sejam seus resultados militares, uma guerra traria à União Soviética enormes pressões econômicas que se acrescentariam às complicações já existentes.Se deteria a construção econômica e muito provavelmente se produziriam dificuldades políticas.

Em semelhantes circunstâncias somente pode-se ir à guerra se isso for absolutamente inevitável. Mas não o é. Pelo contrário, ainda desde o ponto de vista estritamente militar, o governo soviético não tem nenhuma razão para apressar-se ou ir ao encontro dos acontecimentos. Com a sua tomada da Manchúria, o Japão não fará mais que enfraquecer-se. As condições do Oriente Distante (as imensas distâncias, o atraso econômico geral e, em particular, as precárias conexões rodoviárias) fazem com que não haja nenhuma razão para temer um perigo imediato, ou sequer relativamente remoto, para os centros vitais da União Soviética, incluídos, claro está, os da Ásia.

A questão da Ferrovia Oriental da China, importante como é por si mesma, não pode ter, vista em conexão com isso, uma importância decisiva para determinar a política de ambos lados. O governo soviético anunciou mais de uma vez que está disposto a entregar a ferrovia a um governo chinês realmente forte, ou seja a um governo que se apoie em um povo chinês alerta. Se a tivesse entregue anteriormente, a Chang Tso-lin ou a Chang Hsueh-liang, isto teria significado, direta ou indiretamente, dar a ferrovia ao Japão, que a teria utilizado contra a China e contra a União Soviética.

Interpretar a política soviética em relação à Ferrovia Oriental da China como “imperialismo” é virar as coisas do avesso em favor do militarismo japonês agressor. Mas em todo caso a questão da ferrovia não é algo isolado. É um elemento subordinado dentro de um grande problema geral do Oriente Distante. A China terá a última palavra sobre este assunto. E as mais ardentes simpatias do povo da União Soviética estarão do lado do povo chinês, com toda certeza.

Podemos acrescentar que a atual situação da Europa teria que deixar claro, como mínimo, para qualquer um que pense politicamente, inclusive para os opositores da URSS, que a União Soviética não pode nem deve ficar de mãos atadas no Oriente Distante. Onde quero chegar? À possibilidade que os nacionais-socialistas, ou seja os fascistas, tomem o poder na Alemanha. Se isto acontecesse, estou convencido que significaria inevitavelmente uma guerra entra a Alemanha fascista e a República soviética. Então sim estaríamos diante de uma questão de vida ou morte. Mas esse é outro assunto, sobre o qual talvez possamos voltar a tratar em outra ocasião.


Notas:


A invasão japonesa da Manchúria. Com autorização da Biblioteca da Universidade de Harvard. Existe uma tradução (em inglês) publicada com o título Why Russia Dare Not Fight Japan (Por que a Rússia não se atreve a lutar contra o Japão) em Liberty, 27 de fevereiro de 1923, mas ao compará-la com o texto de Trótski que está em Harvard, descobriu-se que havia trechos fora de lugar, e que faltavam várias frases. Essa tradução (ao inglês) foi revisada e corrigida para este volume (da edição norte-americana) por George Saunders. O Japão iniciou a invasão à Manchúria no dia 18 e 19 de setembro de 1931. Em fevereiro de 1932 os invasores declararam aquela grande província uma nação “independente”, nomeando-a “Manchukuo”, e estabeleceram um regime fantoche para que governasse em nome dos interesses do imperialismo japonês.


A Liga das Nações nasceu na conferência de paz em Versalhes, em 1919; seus estatutos foram parte do tratado de paz de Versalhes, elaborado pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial e impunha condições e as indenizações aos os países derrotados, especialmente a Alemanha. A resposta da Liga ao ataque japonês à Manchúria foi uma comissão de investigação, cuja recomendação de que o Japão evacuara a Manchúria “protegendo” seus direitos foi aceita mais de um ano mais tarde. O Japão então não se retirou da Manchúria mas da Liga.


Aristide Briand (1862-1932): expulso em 1906 do Partido Socialista francês por aceitar cargos em um gabinete capitalista, foi várias vezes premier e representante da França na Liga das Nações.


Eijiro Honjo: comandante-chefe do exército japonês em Cantão, no extremo sul da Manchúria, que iniciou o ataque.


Hiroito (n. 1901): o mikado; começou a reinar em 1926.


A Espanha tinha conseguido colocar bases em Marrocos no século XIX, mas jamais conseguiu vencer os movimentos de resistência. A sua política colonial, forçada pelos militaristas, era cara, impopular e causava com frequência crises políticas na Espanha.


Chang Tso-lin: caudilho militar que na década de 20 controlava a Manchúria com o respaldo japonês. Em 1928 foi assassinado pelos militares japoneses quando decidiram abandonar seu protegido para preparar a intervenção direta na Manchúria. Chang Hsueh-liang (n. 1808): filho de Chang Tso-lin; ao morrer seu pai em 1928 foi o responsável pelo controle da Manchúria e ingressou no Kuomintang, servindo como general às ordens de Chiang Kai-shek.

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