Vladimir Lênin - A Guerra na China

Atualizado: Jan 21



V. I. Lenin

Publicado: Iskra, No. 1, Dezembro de 1900


A Rússia está encerrando sua guerra com a China: vários distritos militares foram mobilizados, centenas de milhões de rublos foram gastos, dezenas de milhares de tropas foram enviadas para a China, várias batalhas foram travadas, dentre as quais várias foram de fato vencidas, mas não tanto sobre as tropas inimigas quanto sobre os rebeldes chineses e, em particular, sobre a população chinesa desarmada, que foi afogada ou assassinada, sem deixar de lado o assassinato de mulheres e crianças, para não falar da pilhagem de palácios, casas e lojas. O governo russo, juntamente com a imprensa que se ajoelha perante ele, está celebrando uma vitória e regozijando-se com as recentes façanhas dessa destemida expedição, regozijando-se com a vitória da cultura europeia sobre a barbárie chinesa e com os mais novos êxitos da "missão civilizadora" da Rússia no Extremo Oriente.

Mas as vozes dos trabalhadores com consciência de classe, dos representantes mais avançados dos muitos milhões de trabalhadores, não são ouvidas no meio dessa alegria. E, no entanto, são os trabalhadores que pagam o preço das vitoriosas novas campanhas, são os trabalhadores que são enviados para o outro extremo do mundo e de quem são extorquidos impostos cada vez mais altos para cobrir os milhões gastos. Vejamos, portanto: Que atitude devem os socialistas adotar diante dessa guerra? Em nome de quem ela é combatida? Qual é a verdadeira natureza da política adotada atualmente pelo governo russo?

O nosso governo afirma, em primeiro lugar, que não está travando uma guerra contra a China; está apenas suprimindo uma rebelião, pacificando os rebeldes; está ajudando o governo legítimo da China a restabelecer a lei e a ordem. É verdade que a guerra não foi declarada, mas isso não altera nem um pouco a situação uma vez que a guerra está sendo travada de qualquer forma. O que fez os chineses atacarem os europeus? O que causou a rebelião que os britânicos, franceses, alemães, russos, japoneses, etc., esmagam com tanto primor? "A hostilidade da raça amarela contra a raça branca", "o ódio chinês pela cultura e civilização europeias" - respondem os partidários da guerra. Sim! É verdade que os chineses odeiam os europeus. Mas quais europeus eles odeiam? E por quê? Os chineses não odeiam os povos europeus, nunca tiveram qualquer problema com eles - eles odeiam os capitalistas europeus e os governos europeus que lhes servem. Como podem os chineses não odiarem aqueles que vieram até a China com o único objetivo de lucrar; que se aproveitaram de sua exaltada civilização com o único objetivo de trair, pilhar e violentar; que travaram guerras contra a China para ganhar o direito ao comércio do ópio com o qual drogaram o povo (guerra da Inglaterra e da França contra a China, em 1856); e que hipocritamente conduziram sua política de pilhagem sob o pretexto de espalhar o cristianismo? Os governos burgueses da Europa há muito empregam essa política de pilhagem em relação à China, e agora juntou-se a eles o governo autocrático russo. Essa política de pilhagem é geralmente chamada de política colonial. Todo país onde a indústria capitalista se desenvolve rapidamente tem que, num curto período de tempo, procurar colônias, ou seja, países nos quais a indústria é pouco desenvolvida, onde um modo de vida mais ou menos patriarcal ainda prevalece e que pode servir como um mercado para bens manufaturados e ser uma fonte enorme de lucros. Em nome do lucro de um punhado de capitalistas, os governos burgueses têm travado guerras sem fim, têm enviado regimentos para morrer em países tropicais insalubres, têm desperdiçado milhões extraídos do povo, e têm levado os povos das colônias a revoltas desesperadas ou à morte por fome. Basta recordar a rebelião dos povos nativos contra os britânicos na Índia e a fome que ali prevaleceu, ou pensar na guerra que os ingleses estão travando agora contra os Beers.

E agora os capitalistas europeus colocaram suas patas vorazes sobre a China e, quase o primeiro a fazê-lo, o governo russo, agora proclama em alto e bom som sua "falta de interesse". Ele "desinteressadamente" tomou Port Arthur da China e começou a construir uma ferrovia para a Manchúria sob a proteção das tropas russas. Um após outro, os governos europeus começaram a pilhar, ou, como dizem, a "alugar" o território chinês, criando uma situação na qual uma conversa sobre a partilha da China não seria estranha. Se quisermos dar nome aos bois, devemos dizer que os governos europeus (o governo russo entre os pioneiros) já começaram a partilha da China. No entanto, eles não começaram esta partição abertamente, mas furtivamente, como ladrões. Começaram a roubar a China como vampiros roubam cadáveres e, quando o aparente cadáver tentou resistir, lançaram-se sobre ele como feras selvagens, incendiando aldeias inteiras, atirando, abaionetando e afogando no rio Amur cidadãos desarmados, suas esposas e seus filhos. E todas essas façanhas cristãs são acompanhadas de uivos contra os bárbaros chineses que ousaram levantar as mãos contra os civilizados europeus. A ocupação de Niuchuang e a movimentação de tropas russas para a Manchúria são medidas temporárias, declara o governo autocrático russo, em sua nota circular de 12 de agosto de 1900 dirigida às potências; essas medidas "são adotadas exclusivamente pela necessidade de repelir as operações agressivas dos rebeldes chineses"; elas "não podem de forma alguma serem consideradas evidências de quaisquer planos egoístas, que são totalmente estranhos à política do governo imperial".

Pobre governo imperial! Tão cristianamente altruísta, e ainda assim tão injustamente caluniado! Vários anos atrás, ele se apoderou altruisticamente de Port Arthur, e agora está se apoderando altruisticamente da Manchúria; ele inundou altruisticamente as províncias fronteiriças da China com hordas de empreiteiros, engenheiros e oficiais, que, por sua conduta, despertaram a indignação até mesmo dos chineses, conhecidos por sua docilidade. Os trabalhadores chineses empregados na construção da ferrovia chinesa tinham que existir com um salário de dez kopeks por dia - isso não é altruísta da parte da Rússia?

Como explicar a política insensata do nosso governo na China? Quem se beneficia com isso? O benefício vai para um punhado de magnatas capitalistas que realizam comércio com a China, para um punhado de proprietários de fábricas que fabricam mercadorias para o mercado asiático, para um punhado de empreiteiros que agora estão acumulando enormes lucros em ordens de guerra urgentes (fábricas que produzem equipamentos de guerra, suprimentos para as tropas, etc., estão agora operando em plena capacidade e estão contratando centenas de novos trabalhadores). Essa política beneficia um punhado de nobres que ocupam cargos elevados nos serviços civis e militares. Eles precisam de políticas aventureiras, pois estas lhes oferecem oportunidades de promoção, de fazer carreira e ganhar fama com suas "façanhas". No interesse desse punhado de capitalistas e canalhas burocráticos, nosso governo sacrifica sem hesitação os interesses de todo o povo. E neste caso, como sempre, o governo autocrático czarista provou ser um governo de burocratas irresponsáveis que se apequenam servilmente diante dos magnatas e nobres capitalistas.

Que benefícios a classe trabalhadora russa e o povo trabalhador geralmente obtêm das conquistas na China? Milhares de famílias arruinadas, cujos chefes foram enviados para a guerra; um enorme aumento da dívida nacional e das despesas nacionais; aumento da tributação; maior poder para os capitalistas, os exploradores dos trabalhadores; piores condições para os trabalhadores; ainda maior mortalidade entre os camponeses; fome na Sibéria - isso é o que a guerra chinesa promete e já está trazendo. Toda a imprensa russa, todos os jornais e periódicos são mantidos em estado de submissão; eles não ousam imprimir nada sem a permissão dos funcionários do governo. Esta é a razão da falta de informação precisa sobre o que a guerra chinesa está custando ao povo; mas não há dúvidas de que esteja custando muitas centenas de milhões de rublos. Chegou ao nosso conhecimento que o governo, através de um decreto não publicado, distribuiu nada mais nada menos do que cento e cinquenta milhões de rublos com o objetivo de travar a guerra. Além disso, no momento, os gastos com a guerra absorvem um milhão de rublos a cada três ou quatro dias, e essas somas fantásticas estão sendo desperdiçadas por um governo que, pechinchando cada kopek, tem reduzido constantemente as doações para os camponeses atingidos pela fome; que não consegue encontrar dinheiro para a educação do povo; que, como qualquer kulak, faz suar os trabalhadores das fábricas do governo, faz suar os empregados inferiores dos correios, etc.!

O ministro das finanças Witte declarou que, em 1º de janeiro de 1900, havia duzentos e cinquenta milhões de rublos disponíveis no Tesouro Nacional. Agora esse dinheiro desapareceu, foi gasto na guerra. O governo está procurando empréstimos, está aumentando a tributação, está recusando as despesas necessárias devido à falta de dinheiro e está colocando um fim à construção de ferrovias. O governo czarista está ameaçado de falência e, no entanto, está entrando de cabeça numa política de conquista - uma política que não só exige o gasto de vultuosas somas de dinheiro, como ameaça nos afundar em guerras ainda mais perigosas. Os estados europeus que se lançaram contra a China já estão começando a discutir a divisão do saque e ninguém pode dizer como essa disputa vai acabar.

Mas a política do governo czarista na China não é apenas uma afronta aos interesses do povo - o seu objetivo é corromper a consciência política das massas. Os governos que se mantêm no poder apenas pela baioneta, que têm de constantemente reprimir ou suprimir a indignação do povo, há muito perceberam que é óbvio que o descontentamento popular nunca pode ser eliminado e que é necessário apontar o descontentamento com o governo em outra direção. Por exemplo, está em andamento uma hostilidade contra os judeus; a imprensa podre promove campanhas de difamação contra os judeus, como se os trabalhadores judeus não sofressem exatamente da mesma forma que os trabalhadores russos a opressão do capital e do estado policial. Neste momento, a imprensa está conduzindo uma campanha contra os chineses; está uivando sobre a raça amarela selvagem e sua hostilidade à civilização, sobre a responsabilidade russa de iluminar esse povo bárbaro, sobre o entusiasmo com que os soldados russos entram em batalha, etc., etc., etc. Os jornalistas, que rastejam de bruços perante o governo e os sacos de dinheiro, estão dando seu melhor para despertar o ódio do povo contra a China. Mas o povo chinês não oprimiu o povo russo em nenhum momento e de forma alguma. O povo chinês sofre dos mesmos males que o povo russo - sofre com um governo asiático que drena impostos de camponeses famintos e suprime toda aspiração à liberdade com a força militar; sofre com a opressão do capital, que penetrou no Reino do Meio.

A classe operária russa está começando a sair do estado de opressão política e ignorância em que as massas do povo ainda estão submersas. Portanto, o dever de todos os trabalhadores conscientes de classe é levantar-se com todas as suas forças contra aqueles que estão despertando o ódio nacional e desviando a atenção do povo trabalhador de seus verdadeiros inimigos. A política do governo czarista na China é uma política criminosa que está empobrecendo, corrompendo e oprimindo o povo mais do que nunca. O governo czarista não só mantém nosso povo em escravidão, mas o envia para pacificar outros povos que se rebelam contra sua escravidão (como foi o caso em 1849, quando as tropas russas reprimiram a revolução na Hungria). Isso não só ajuda os capitalistas russos a explorar os trabalhadores russos, cujas mãos estão atadas para impedi-los de se unirem e se defenderem, mas também envia soldados para saquear outros povos atendendo os interesses de um punhado de homens ricos e nobres. Há apenas uma maneira de remover o novo fardo que a guerra lança sobre o povo trabalhador, que é a convocação de uma assembléia de representantes do povo que colocaria um fim na autocracia do governo e o obrigaria a levar em consideração outros interesses além de apenas aqueles de uma gangue de bajuladores.

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